março 9, 2006

Sobre a inteligência dos homens, e a inteligência das mulheres

para dimi e lucs, que não têm nada a ver com nada disso, mas me deu vontade de dedicar um post a. :B


O problema dos homens é ter consciência demais da própria inteligência.

Pensei na máxima acima depois de assistir Orgulho e Preconceito, filme em que o pescoço da Keira Knightley interpreta uma husband-hunting butterfly. Ela é uma dentre cinco ou seis irmãs caçadoras de marido, mas dentre todas a mais talentosa, e enquanto as outras se utilizam de táticas primárias como atirar lencinhos para oficiais em marcha e coisas assim, o Pescoço sabe /exatamente/ o que fazer.

O filme é, ao que tudo indica, baseado no livro homônimo de Jane Austen, uma espécie de Murasaki Shikibu da era vitoriana. Borges, argumento por autoridade, disse que o Ocidente precisou de uns 900 anos para ter uma aristocracia sofisticada o bastante para que seus romances de drogaria tivessem personagens com tantas sutilezas de personalidade, apresentadas de maneiras tão sutis - namely, com Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade e outros romances de título escroto o Ocidente alcançou a delicadeza do Genji Monogatari. Eu não li, naturalmente, nenhum desses livros até o final, ou até a página 50; toda essa coisa de casamentos e tomar chá no jardim e caligrafias que são belas demais pra terem vindo de uma plebéia me machuca de tédio. E me contam que tem uma hora que o príncipe Genji se interessa por um rapazinho, também.

Eu queria, antes de prosseguir, citar dos diários de Ralph Waldo Emerson (argumento por autoridade):

"I am at loss to understand why people hold Miss Austen's novels at so high a rate, which seem to me vulgar in tone, sterile in artistic invention, imprisoned in the wretched conventions of English society, without genius, wit, or knowledge of the world. Never was life so pinched and narrow. The one problem in the mind of the writer (...) is marriageableness (...) Suicide is more respectable."


Mas então. Não sei quão fiel o filme é ao livro, mas pelo que parece não muito. Contam-me de casais velhos saindo com ar afetadamente ofendido do cinema, e pelo que me contam o pai, um dos personagens que mais me agradaram, não tem nada que ver com o pai apresentado no livro. Na avaliação de Andreis Passarinho: "o pai no livro é ausente e fica toda hora tirando a mãe e as filhas bobocas, no filme ele é maior carinhoso e legal". Preferi não perguntar se o Pescoço da Keira Knightley no livro é diferente, é mais gostoso acreditar que não.

um pescoço sagaz

Mas então, da inteligência; eis que chega na vila da história um sujeito riquíssimo, e portanto automaticamente um Bom Partido no mundo da Jane Austen - mesmo que seja um sujeito calado, taciturno, de papo entediante entoado numa cadência lenta e monótona quando finalmente abre a boca, sombrio, com cicatrizes de espinha pelo rosto e que não sabe dançar. E enquanto as borboletas menores atiram lenços para oficiais de baixa patente que marcham, o Pescoço da Keira Knightley, borboleta-mor, começa a agir de maneira sempre elaborada, sempre muito calculada, para fisgar o Bom Partido da cidade. Claro que isso é uma obra de ficção, porque no mundo real ela o teria fisgado imediatamente, apenas pelas virtudes de suas curvas suntuosas (falo do pescoço, mas hm); caso não funcionasse, seria porque o mister darcy é, como de fato, meio gay - Toda aquela seriedade afetada não me engana.Continuando: ela sabe que a diferença de classe social seria um impedimento, e portanto trata de tratar o Bom Partido com arrogância e altivez, para compensar; sabe que gente tão calada assim costuma se considerar profunda, muito profunda, e trata de cultivar a aparência de profundidade com comentários sagazes pontuados por silêncios inteligentes e olhares corretos, expressões de segurar o riso utilizadas com todo cuidado; reconhece, com esse incrível poder da intuição feminina, a única pessoa em toda a cidade que provocaria ciúmes no Bom Partido, ao ponto de querer tomá-la dele virasse uma questão de orgulho pessoal, além de masculino; e, naturalmente, gruda no sujeito fonte-de-ciúmes. Observe a astúcia do pescoço: essa única pessoa estava uniformizada, no meio de um batalhão, e a sagacidade de seu olhar o localizou. Trata, enfim, o Bom Partido com desprezo e desdém, sabendo que essa é a única forma de superar o vão que existe entre os dois, de fazê-lo descer até o nível dela com a sensação de estar subindo e arranjando grandes coisas.*

* O que, naturalmente, ele está - a lógica está toda invertida, as curvas do pescoço da keira knightley valem muito mais que essas coisas todas, mas vide o comentário acima sobre o carinha não reparar nisso, e logo ser meio gay.


Pescoço Sagaz provoca Bom Partido meio gay


(É claro que essa estratégia da altivez e do desdém calculado não está livre de seus perigos; aprendemos sobre isso com uma das irmãs, que exagera e acaba quase não casando porque o Partido Razoável, que almejava, e as pessoas todas em volta acreditaram mesmo que ela o desprezava por completo, de verdade, que não era só estratégia. Só é salva pela astúcia do Pescoço da Keira Knightley, que mexe os pauzinhos a seu favor.)

O ponto central do argumento sendo: enquanto o Pescoço da Keira Knightley fazia tudo, tudo certinho, tudo calculado e premeditado para seu fim, a cabeça em cima do dito pescoço, que aliás cheia também de virtudes e tudo o mais, não fazia a menor idéia do que estava acontecendo. O que, claro, era o plano do pescoço: se a cabecinha soubesse que elas estavam apenas fingindo desprezá-lo, ela provavelmente se meteria na coisa, teria dúvidas morais, tomaria iniciativas desastrosas, não entenderia o princípio geral por trás do plano e as sutilezas de sua execução. Só no final, quando era de interesse do pescoço, que ele a informa. O pescoço, à cabeça. Daí ela se toca, de repente, que oh, amava ele desde o começo, que tola ela foi, etc. a-rã.

(Se você tem alguma dúvida sobre quem é a protagonista, a Keira Knightley ou o Pescoço da Keira Knightley, assista de novo e compare.)

Meu argumento - é o último parágafo, então não tem como enrolar mais pra apresentá-lo - é que mulheres, com o que quero dizer mulheres de verdade, sempre têm essa inteligência de fazer a coisa certa, do pequeno gesto e coisinha, da atitude estrategicamente correta para a situação; mas raramente, reparo, elas têm consciência do plano maior envolvido nisso. Mesmo as que se acham espertinhas, mesmo as que se acham espertalhonas. Essas, aliás, acabam querendo se meter nos planos e quase sempre estragam tudo. E ó, que cena horrível quando a inteligência consciente de uma mulher entra em conflito com sua inteligência superior; o cliché da cena de perguntar que vestido fica melhor nela, o charminho de ficar-de-mal sem explicar porquê, e achar absurdo e cretino da sua parte perguntar, como se não fosse óbvio o que você fez (99% das chances: ela também não sabe), todo esse terror. E é uma inteligência exclusivamente feminina, com o que quero dizer que tem homens que têm também, mas se você reparar eles desmunhecam*. Nós homens temos que nos virar com a inteligência que temos, e acabamos sendo todos como aquele pastor desastrado e sem graça com que a borboleta mais velha se casa, apenas alguns com mais talento para o jogo que os outros.

* vide Capote, também nos cinemas.

at março 9, 2006 5:15 PM