abril 18, 2005

De comprar livros usados

(na verdade, é sobre The Recognitions)

Há vários pequenos prazeres em comprar livros usados. Pagar menos por eles, o óbvio. Como eles chegam é outro - no começo do ano, encomendei 20 e poucos livros na alibris, em uma noite de impulsos compulsivos; a alibris manda cada um separadamente, já que eles costumam vir, os livros, de sebos diferentes. Resulta disso que, um mês depois, todo dia tinha um pacotinho verde e branco para mim no correio. Vocês sabem como é o prazer de encontrar pacotes com seu nome na caixa do correio; pensem agora como é encontrar um novo quase todos os dias, durante um mês inteiro. (A bookcloseouts tem um método diferente, mas também com seu charme: botam tudo num pacote só, e botam o pacote dentro de um saco azul, muito maior do que o necessário, que largado no chão fica um pouco mais alto que o criado-mudo. Você senta e fica olhando para aquele grande saco azul, com os pensamentos felizes de uma grande pilha de livros novinhos para você, enquanto olha as etiquetas que sugerem que os livros fizeram um trajeto exótico, passando pelo canadá e pela alemanha até aportar aqui. Até onde eu consigo entender.)

Um outro prazer em comprar livros usados é que muitas vezes as pessoas escrevem nas margens, e isso é sempre interessante, quando o que escrevem é bom e quando o que escrevem é ruim. Meu exemplar de The Recognitions, do William Gaddis, foi imensamente enriquecido por anotações feitas nas margens, com um marcador amarelo. A certa altura, por exemplo, tem uma grande anotação amarela dizendo "BULLSHIT!"

A passagem é esta aqui:

- There's always the sense, he went on - the sense of recalling something, of almost reaching it, and holding it . . . She leaned over to him, her hand caught his wrist and the coal of tobacco glowed, burning his fingers. In the darkness she did not notice. -- And then it's . . . escaped again. It's escaped again, and there's only a sense of disappointment, of something irretrievably lost.
He raised his head.
- A cigarrete, she said. -Why do you always leave me so quickly afterward? Why do you always want a cigarette right afterward?
- Reality, he answered.


Vejam, agora, mais ou menos como ela está no meu livro:


- There's always the sense, he went on - the sense of recalling something, of almost reaching it, and holding it . . . She leaned over to him, her hand caught his wrist and the coal of tobacco glowed, burning his fingers. In the darkness she did not notice. -- And then it's . . . escaped again. It's escaped again, and there's only a sense of disappointment, of something irretrievably lost.
He raised his head.
- A cigarrete, she said. -Why do you always leave me so quickly afterward? Why do you always want a cigarette right afterward?
- Reality, he answered.

BULLSHIT!


O que não captura exatamente como é a experiência, porque a folha é bem mais escura que o fundo deste blog, muitos de vocês não viram esse diálogo começar 15 páginas antes e terminar 16 páginas depois, mas dá para ter uma idéia de como ficou mais legal. À primeira vista, pensei que o bullshit se referia à afetação de artiste de acender um cigarro porque precisa de, oh, re-a-li-da-de, a angústia meio forçadinha de perseguir não-sei-o-quê que sempre foge quando se acha que se o capturou, etc. Depois mudei de idéia, entretanto: acompanhando os demais comentários da leitora ("THEN WHY TALK ABOUT IT?" em resposta a um "do you think there's anything more exquisitely private than that, for me?", um "easy for anybody?" para "Do you think it's easy for a woman?" etc.), descobri que ela se envolveu no longo diálogo conjugal, se emocionou, e quando Wyatt Gwyon se esquiva dizendo que quer "realidade", ela acompanhou o grito interior de bullshit! que Esther provavelmente proferiu, caladinha. Reparem que eu a chamo de leitora, porque é patente disso que foi uma mulher que escreveu esses comentários. Nós, os meninos, torcemos para que essas partes em que casais atormentados discutem o relacionamento acabem logo, para ele voltar a falar de bruxaria, ou, sei lá, pelo menos de pintura.

Pouco depois desse episódio, os comentários foram minguando; imaginei que minha leitora tinha desistido do livro, que tinha achado o protagonista muito emocionalmente distante (Wyatt Gwyon faz o Dr. Fausto do Mann parecer a alegria da festa), a erudição meio enfadonha ou algo do tipo. Algumas páginas depois, os comentários reaparecem; imagino que ela passou por essas páginas meio desanimada, não querendo largar o livro ainda, e acabou se interessando de novo mais adiante. Ou então ela leu no ônibus, sem caneta marca-texto por perto, ou outro acidente assim.

The Recognitions é o livro ideal para se ler com um marca-texto, porque é muito difícil passar duas ou três páginas sem algum trecho memorável; como são muitos, acabam sendo memoráveis no sentido de que você gostaria de se lembrar deles, não que você conseguiria retê-los todos na cabeça. Por exemplo, quando ele descreve os garçons parisienses, que "stared with a distance of glazed indulgence which all collected under it admire, as they admired the rudeness, which they called self-respect; the contempt, which they called innate dignity; the avarice, which they called self-reliance; the tasteless ill-made clothes on the men, lauded as indifference, and the far-spaced posturings of haute couture across the Seine, called inimitable or shik according to one's stay"; quando diz "They arrived at a room full of people who spent their lives in rooms."; quando um personagem protesta: "They try to say their paintings are the spirit of the times, don't you know, but good heavens aren't the times bad enough without having pictures of it hanging all over the place?"; que pessoas que descrevem quadros como "soul-searching" "don't have a soul to search"; ou (para me conter e não citar o livro inteiro, um fragmento de cada vez), momentos como:

"- You remind me of a boy I was in school with, Valentine said, quietly. - You and Martin. The ones who wake up late. You suddenly realize what is happening around you, the desperate attempts on all sides to reconcile the ideal with reality, you call it corrpution and think it new. Some of us have always known it, the others never know. You and Martin are the ones who cause the trouble, waking suddenly, to be surprised. Stupidity is never surprised, neither is intelligence. They are complementary, and the whole conduct of human affairs depends on their co-operation. But the Martins appear, and cause mistrust . . ."

Neste quesito, não sei o que pensar de minha leitora; ela marcou muitas passagens muito boas, mas também algumas coisas bem fraquinhas - algo sobre ser hot as hell no verão e cold as hell no inverno, algumas banalidades sobre a infância, alguns comentários que seriam até mordazes em outros contextos, mas que são pasto na prosa do Gaddis. Como seria o senso de humor da leitora? Ela aprecia o sarcasmo, acompanha as finesses de ironia, mas os deslizes em marca-texto traem que ela deve gostar muito de outro humor - como os humores que o orkut agora chama de palhaço/pateta ou simpático, ou o humor daquelas tiras do snoopy que são mais endearing do que cômicas. Ela deve ser, pelo menos, moderadamente inteligente; mas, ao contrário do leitor arquetípico de Gaddis, deve ter também um coração.

The Recognitions é um livro de 1955, e foi o primeiro romance de William Gaddis. A crítica o recebeu como um livro confuso e indulgente em sua erudição, com seus vários personagens e pouco enredo aparente, e, estranhamente, como obsceno. O público também rejeitou o livro, fazendo dele um grande fiasco. O interesse em Gaddis surgiria mais tarde, com seus romances mais curtos (e, me dizem, mais fluidos). Muito do que ressuscitou o interesse em Gaddis foi, também, elogios das gerações seguintes de escritores: David Foster Wallace o cita várias vezes como seu escritor favorito, e Delillo descreve The Rec como "uma revelação, uma obra com a beleza e a textura de um monólogo shakesperiano - ou, talvez mais apropriadamente, uma pintura da Renascença impossivelmente transformada de imagem em palavras", e elogia o estilo uncompromising, em que não se modera exigências sobre o leitor para se prosseguir com inovações de forma, tema e estrutura. É, aliás, graças às gerações seguintes de inventores que a crítica e o público puderam finalmente alcançar Gaddis - depois de Pynchon e Delillo, eles puderam recuar e entender o que desprezaram na década de 50.

Há, aliás, uma história interessante sobre Pynchon e Gaddis. A partir da publicação do primeiro romance de Pynchon, V., em 63, especulou-se que Pynchon e Gaddis seriam a mesma pessoa. Wanda Tinasky (uma mulher misteriosa, que mandou uma série de cartas para jornais), disse, em 85, que "William Gaddis e Thomas Pynchon são a mesma pessoa", e, em 86, que "um autor self-published de um quarto de século atrás [ . . . ] considerado por Aqueles Que Sabem Do Que Estão Falando como o escritor mais interessante da América naquele período [ . . . ] deu-se muito bem no mercado editorial com romances publicados comercialmente sob os nomes 'William Gaddis' & 'Thomas Pynchon'". Wanda Tinasky foi chamada pelos jornais, mais tarde, de "quase certamente um pseudônimo de Thomas Pynchon", e suas cartas foram reunidas em um belo volume; Pynchon negou, tanto via sua agente e esposa quanto pessoalmente para a CNN, que seja Wanda Tinasky; uma piadinha sutil nas cartas de Tinasky, envolvendo a genealogia de "faggot" no grego "phagein", significando comer, alude a um trecho de The Rec. Gaddis já foi também acusado de ser Jack Green, o único resenhista na década de 50 a reconhecer a grandeza de seu romance, e que atacou os erros e tacanhice intelectual dos demais críticos com virulência; Thomas Pynchon já foi acusado de ser um grande número de pessoas além de Gaddis e Tinasky, além de ter influenciado a composição de Smells Like Teen Spirit e de ser roteirista de um programa infantil matinal, apenas para tocar nas bordas do emaranhado de teorias e conspirções do Pynchon Mythos. Com seus romances girando em torno de falsificadores, fraudes e mentirosos (Gaddis) e paranóicos e conspiradores (Pynchon), é provável que ambos tenham enxergado o humor nas acusações de Tinasky, seja ela Pynchon, como muitos dizem em tom de certeza por aí, ou Gaddis, ou um terceiro desconhecido in the know, ou qualquer outra das várias possíveis combinações.

(Apenas para atiçar um pouco mais o espírito conspiratório, uma das resenhas de The Rec na década de 50 se referiu a William Gaddis erroneamente como "William Gibson". William Gibson, na época uma criança de 7 anos, viria a ser o escritor de ficção científica mais festejado do final do século xx, aclamado pelo seu romance de estréia, Neuromancer, de 1984, possivelmente profetizado no final do ensaio Is it ok to be a luddite?, de Pynchon, também de 1984. All together now: hmmmm.)

Onde fica minha leitora, no bafafá todo sobre Gaddis? Quando ela o teria comprado? A edição é a da Meridian Books, segunda reimpressão, de 1963. Se ela o comprou numa livraria, então o fez quando o livro era ainda desconhecido por quase todos e desprezado pelos restantes; certamente sem orientação de resenhas, é possível que ela o tenha apanhado ao acaso (é difícil não topar com o trambolho de 956 páginas), e se interessado depois de folhear algumas páginas, embora não com uma Revelação como a de Delillo. É possível que algum amigo mais literati, ou um professor, tivesse lhe recomendado; é possível, até, que a recomendação tivesse sido feita com maldade, deixando-a com um dos livros mais difíceis e exigentes desde Ulysses nas mãos. (O rapaz que fez a recomendação perguntando de tempo em tempo, sadicamente, como que anda a leitura, se The Rec não é mesmo magnífico, para a menina que lhe pareceu um pouco pretensiosa demais.) E é possível - mas agora é mais uma fantasia - que, como 63 é o ano de publicação de V., ela tenha chegado a ele movida pelos nascentes boatos Pynchon-Gaddis. Tendo comprado The Rec em 63 ou 64, e chutando uma idade mínima de 20 anos, ela teria pelo menos 60 e poucos anos hoje, possivelmente muito mais; talvez nem esteja mais viva. O que nos leva ao outro ramo de possibilidades, de que ela também tenha comprado o livro num sebo, e ele tenha tido não um, mas vários donos anteriores. Há pouquíssimos vestígios de outros donos além de nós dois; encontrei uma ou duas passagens marcadas a lápis, ao invés de seu característico marcador amarelo, mas fora isso todas as anotações e marcas são coerentes, e definem, mesmo que de maneira muito sutil, uma personalidade bem-definida, uma personagem de romance. Em House of Leaves, o primeiro hype literário do novo século, conhecemos um dos personagens principais essencialmente graças às suas anotações às margens do texto principal, um longo ensaio fictício, escrito por um cego, sobre um filme de terror em forma de documentário.*. Suas elucidações e comentários pessoais são muitas vezes longos demais, excessivos demais; falta-lhe a sutileza oriental com que minha leitora se revela com o mínimo de recursos possível, por omissão tanto quanto por marcas ativas de sua leitura, sem imaginar que seria ela mesma vista como mais um personagem nos jogos de reflexões e imitações de The Recognitions.

(Observo que no cantinho da página, na vertical, está escrito "Halverson". Não sei dizer ao certo se faz parte da capa ou se foi escrito depois, mas olhando de perto prevalece a impressão segunda. Se você leu The Recognitions e seu sobrenome é Halverson, ou conhece alguém nesta condição, escreva para adrian arroba blinkenlichten ponto info. Propostas de casamento serão cuidadosamente consideradas.)


* talk about too many levels.

at abril 18, 2005 12:34 PM