agosto 18, 2005

Brasília de Dirceu

PARTE I

Lira I

d.jpg

Eu, Brasília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d' expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio curral, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Brasília bela,
Graças à minha Estrela!

Lira IV

brasilia.gif

Se estavas alegre,
Dirceu se alegrava;
Se estavas sentida,
Dirceu suspirava
À força da dor.
Brasília, escuta
Um triste Doutor.

Movida, Brasília,
De tanta ternura,
Nos braços me deste
Da tua fé pura
Um doce penhor.
Brasília, escuta
Um triste Doutor.

Tu mesma disseste
Que tudo podia
Mudar de figura;
Mas nunca seria
Teu peito traidor
.
Brasília, escuta
Um triste Doutor.

Tu já te mudaste;
E a faia frondosa,
Aonde escreveste
A jura horrorosa,
Tem todo o vigor.
Brasília, escuta
Um triste Doutor.

Mas eu te desculpo
Que o fado tirano
Te obriga a deixar-me
;
Pois basta o meu dano
Da sorte, que for.
Brasília, escuta
Um triste Doutor.

Lira V

statue_brasilia.jpg

Mas como discorro?
Acaso podia
Já tudo mudar-se
No espaço de um dia
?
Existem as fontes,
E os freixos copados;
Dão flores os prados,
E corre a cascata,
Que nunca secou.
São estes os sítios?
São estes; mas eu
O mesmo não sou.
Brasília, tu chamas?
Espera, que eu vou
.

Lira VIII

d3.gif

Brasília, de que te queixas?
Não te pagou Dirceu
O sincero mesadão?
Não te deu também o seu?
E tu, Brasília, primeiro
Não lhe encheste o cuecão?
Todos pagam: só Brasília
Desta Lei da Natureza
Queria ter isenção?

Lira IX

Eu sou, gentil Brasília, eu sou cativo;
Porém não me venceu a mão armada
De ferro, e de furor:
Uma alma sobre todas elevada
Não cede a outra força, que não seja
A tenra mão de amor.

bandido.jpg

Arrastem pois os outros muito embora
Cadeias nas bigornas trabalhadas
Com pesados martelos:
Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas
Com duros ferros não, com fios d'ouro,
Que são os teus cabelos.

Lira XI

brasil5.jpg

Mal repito BRASÍLIA, as doces aves
Mostram sinais de espanto
;
Erguem os colos, voltam as cabeças,
Param o ledo canto:
Move-se o tronco, o vento se suspende;
Pasma o gado, e não come:
Quanto podem meus versos! Quanto pode
Só de Brasília o nome!

Lira XII

aperto.jpg

"Morre, tirano;
Morre, inimigo."
Mal isto digo,
Raivoso o aperto
Nos braços meus.
Tanto que o moço
Sente apertar-se,
Para salvar-se
Também me aperta
Nos braços seus.

Lira XIII

d4.jpg

Ah! também quanto
Dirceu obrara,
Se precisara
Brasília bela
De esforço seu!
Rompera os mares
C'o peito terno,
Fora ao Inferno,
Subira ao Céu.

Lira XVI

lu.jpg

Eu, Genoíno, não duvido
Ser a tua Erundina amada
gestora formosa,
gestora engraçada,
Vejo a sua cor-de-rosa,
Vejo o seu olhar divino,
Vejo os seus purpúreos beiços,
Vejo o peito cristalino;
Nem há coisa, que assemelhe
Ao crespo cabelo louro.
Ah! que a tua Erundina vale,
Vale um imenso tesouro!

Sim, Erundina é uma Deusa;
Mas anima a formosura
De uma alma de fera;
Ou inda mais dura.

gm.jpg

Ah! quando Dirceu pondera
Que o seu Genoíno suspira,
Perde, perde o sofrimento,
E qual enfermo delira!
Tenha embora brancas faces,
Meigos olhos, fios de ouro,
A tua Erundina não vale,
Não vale imenso tesouro.

Lira XVII

xunda.jpg

Quando há, Brasília,
Alguma festa
Lá na floresta
,
(Fala a verdade)
dança com esta
o bom Dirceu?
E se ela o busca,
Vendo buscar-se
Não se levanta,
Não vai sentar-se
Ao lado teu?

Lira XVIII

Não vês aquele velho respeitável
Que à muleta encostado
Apenas mal se move, e mal se arrasta
?
Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo!
O tempo arrebatado,
Que o mesmo bronze gasta.

os.jpg

Lira XIX

pasto.jpg

Enquanto pasta alegre o manso gado,
Minha bela Brasília, nos sentemos
À sombra deste cedro levantado.
Um pouco meditemos
Na regular beleza,
Que em tudo quanto vive, nos descobre
A sábia natureza.

marta.jpg

Atende, como aquela vaca preta
O novilhinho seu dos mais separa,
E o lambe, enquanto chupa a lisa teta
.
Atende mais, ó cara,
Como a ruiva cadela
Suporta que lhe morda o filho o corpo
,
E salte em cima dela.

Lira XXIII

Num sítio ameno
Cheio de rosas,
De brancos lírios,
Murtas viçosas;

d5.jpg

Dos seus amores
Na companhia
Dirceu passava
Alegre o dia.

Lira XXVII

Eu lhe respondo: "Perjuro,
"Nada creio do que dizes;
"Porque já te fui sujeito,
"Inda conservo no peito
"Estas frescas cicatrizes.

ELEICAO_DO_PRESIDENTE-5.jpg

PARTE II

Lira II

Eu tenho um coração maior que o mundo!
Tu, formosa Brasília, bem o sabes:
Um coração..., e basta,
Onde tu mesma cabes.

Lira III

20050309_Brasilia5.jpg

Há de, Brasília, mudar-se
Do destino a inclemência;
Tenho por mim a inocência,
Tenho por mim a razão.
Muda-se a sorte de tudo;
Só a minha sorte não?

Qual eu sou, verá o mundo;
Mais me dará do que eu tinha,
Tornarei a ver-te minha
;
Que feliz consolação!
Não há de tudo mudar-se;
Só a minha sorte não.

Lira XI

Quando levares, Brasília,
Teu ledo rebanho ao prado,
Tu dirás: "Aqui trazia
"Dirceu também o seu gado."

gado.jpg

Quando à janela saíres,
Sem quereres, descuidada,
A minha pobre morada.
Tu dirás então contigo:
"Ali Dirceu esperava
"Para me levar consigo;
E ali sofreu a prisão."
Mandarás aos surdos Deuses
Novos suspiros em vão.

Quando vires igualmente
Do caro Sarney a choça,
Onde alegre se juntavam
Os poucos da escolha nossa,
Pondo os olhos na varanda
Tu dirás de mágoa cheia:
"Todo o congresso ali anda,
"Só o meu amado não."

Mandarás aos surdos Deuses
Novos suspiros em vão.

Lira XVII

Dirceu te deixa, ó Bela,
De padecer cansado;
Frio suor já banha
Seu rosto descorado;
O sangue já não gira pela veia,
Seus pulsos já não batem,
E a clara luz dos olhos se baceia:
A lágrima sentida já lhe corre;
Já pára a convulsão, suspira, e morre.

Seu espírito chega
Onde se pune o erro:
Grossos portões de ferro.
Aos severos Juízes se apresenta,
E com sentidas vozes
Toda a sua tragédia representa;
Enche-se de ternura, e novo espanto
O mesmo inexorável Radamanto.

Lira XXI

Que diversas que são, Brasília, as horas,
Que passo na masmorra imunda, e feia,
Dessas horas felizes, já passadas
Na tua pátria aldeia!

Cada qual o seu canto aos Astros leva;
De exceder um ao outro qualquer trata;
O eco agora diz: "Brasília terna";
E logo: "Heloísa ingrata".

291940.jpg


Lira XXV

Eu, Brasília, respiro;
Mas o mal, que suporto,
É tão tirano, e forte,
Que já me dou por morto:
A insolente calúnia depravada
Ergueu-se contra mim, vibrou da língua
A venenosa espada.

Venha o processo, venha;
Na inocência me fundo:
Mas não morreram outros,
Que davam honra ao mundo!
O tormento, minha alma, não recuses:
A quem sábio cumpriu as leis manjadas
Servem de sólio as cruzes.

Lira XXXVI

d6.jpg

Esta mão, esta mão, que ré parece,
Ah! não foi uma vez, não foi só uma,
Que em defesa dos bens, que são do Estado,
Moveu a sábia pluma,

É certo, minha amada, sim é certo
Qu'eu aspirava a ser de um Cetro o dono;
Mas este grande império, que eu firmava,
Tinha em teu peito o trono.

Mas pode ainda vir um claro dia,
Em que estas vis algemas, estes laços
Se mudem em prisões de alívios cheias
Nos teus mimosos braços.

Vaidoso então direi: "Eu sou Monarca;
"Dou leis, que é mais, num coração divino!
"Sólio que ergueu o gosto, e não a foça,
"É que é de apreço digno."

d2.jpg

Posted by Mercuccio at agosto 18, 2005 6:35 PM