Não, não se foram. Silêncio provisório, falso alarma.
1. Vim caminhando procurando na grama algum dente-de-leão para ver se é mesmo dentada a folha. Do francês dent-de-lion o inglês dandelion, mas os franceses dizem pissenlit devido a propriedades diuréticas da planta, conta-me o senhor Robert. Que povo prefere o nome "mija-na-cama" a "dente-de-leão"?
2. Houve tantos passarinhos sempre nestas áreas próximas, de tantas formas e tantas cores? Deus meu! que moro há muito tempo aqui, e não estou velho.
3. Um réptil deu-se o trabalho de meter o preservativo e a embalagem num pequenino saco plástico, mas não o de sair do veículo, buscar uma lixeira.
4. Outro réptil, a pequena cobra sem veneno — não falei dela enquanto viveu — metálica, esverdeada com reflexos de cobre mas já sem reflexos seus, pois morta, na calçada; depois de algumas horas, virada de barriga para cima por algum moleque, branca, parecendo inofensiva mais do que era quando escorria obliquamente para a grama.
5. De fato, jamais tive olho e ouvido que mais esperassem o impossível e nem estou velho. Não sei se aguardar (mesmo impossíveis) melhoras ou pioras.
6. É dentada realmente a folha.
Cheguei da rua, escutei um piado — um conhecido — no ar. Olhei para o alto: uma andorinha. Voava com outras menores. Pode ter sido o primeiro vôo.
Não há mais piados na parede, os de que me queixei por semanas, falando só. Faz silêncio. Vou queixar-me agora disso? Quem sabe. Foram-se.
Foi hoje à tarde, perto de onde moro. Um cachorro bege vinha sozinho. Devia ser estranho ao lugar porque um dos três ou quatro que já estavam lá começou a latir. O que vinha sozinho foi dali com cautela andando embora ao lado de uma moça que passava e que nem o notou. Um preto saiu correndo atrás dele e um pardo, vendo esse correr, correu junto. O bege que saía, logo que viu os outros chegando contra ele em correria contornou a moça que ele acompanhava e que nem o notara, e latiu. A moça o notou enfim, não viu os que chegavam correndo por trás dela e seguiu andando. Os que vinham perseguindo o bege, chegando perto, acharam entre eles e o bege a moça, que prosseguia caminhando inteiramente alheia ao caso; cogitaram talvez que ele não estivesse mesmo sozinho, mas com a moça; o bege e sozinho latiu outra vez; e deixaram que ele fosse embora.
Uma andorinha fez ninho na caixa que envolve o condicionador de ar do escritório. Há uns passarinhos lá, disse o zelador, pelados ainda, mas não sei quantos. Tenho ouvido piados há semanas, todo dia. Só hoje, só agora, faz poucos minutos, abri a cortina e vi realmente a andorinha. Antes era uma sombra na cortina que ia e que vinha, supus que fosse um pardal.
Cheguei perto da janela distraído, abri a cortina, fui ver as nuvens, e ela chegou voando como na minha direção, desviando já bem perto de mim. Não veio à caixa do ninho, ao lado da janela: ficou voando em círculos, decerto com medo de mim e com medo de me deixar saber o lugar dos filhotes. Fez um círculo, na verdade uma elipse, fez duas, fez três. Tive remorso do medo dela e dei uns passos atrás, me escondi num canto do escritório. Não adiantou e ela não veio. Fez mais círculos. Quando ainda eu fechava a cortina ela resolveu-se enfim e ouvi piarem bastante na caixa outra vez.