Vi
Numa visão eu soube que no paraíso todos são grandes poetas ou músicos, narradores ou filósofos, e declamam e tocam e contam e esclarecem prodígios de beleza sem fim; exceto nós dois. Escutamo-los, e quando me apertas a mão, volto-me, estás sorrindo e sorrio também. Quase me dói o rosto contendo em silêncio essa alegria à toa, e nessa dor incompleta o viver para sempre.
Três a zero
Hoje mais calmo lá fora o costumeiro vento sul. Em Curitiba, mal escrevo estas linhas, vai-se aprendendo com quantos sopros se faz um furacão.
Diferentes Cruzes
Lendo nos salmos: Tira a minha alma do cárcere,
vem-me o soneto de Cruz e Souza:
Ah! Toda a alma num cárcere anda presa.
Lendo num soneto de Cruz e Souza:
Crer é sentir, como secreto escudo,
a alma risonha, lúcida, vidente...
E abandonar o sujo deus cornudo,
o sátiro da Carne impenitente.
...vêm-me as palavras do apóstolo: embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.
Cruz e Souza, não lembro quem disse, melhora a cada livro. Nos Últimos Sonetos, sua linguagem é ainda exuberante, porém concentrada. As atmosferas mórbidas e a sensualidade ébria já não lhe interessam, vão sumindo as ricas impressões dos sentidos, pois o mundo deixou de ter seu macabro fascínio e a carne revelou-se desprezível. Porém não a Natureza, para a qual o poeta é o peregrino do caminho santo, o Assinalado, porque povoa de belezas eternas "o mundo despovoado".
Cruz e Souza fala em crer "indefinidamente" e o advérbio está de acordo com uma fé na ordem misteriosa das belezas superiores, que o poeta contemplativo, "enquanto tudo em derredor oscila", alcança não por meio de Deus ou pelo Cristo, mas pela dor, que o "transcendentaliza"; não por Graça, mas pela desgraça purificante. E o poeta, sublimado assim às alturas, é capaz agora de multiplicar mundos, transfigurar em astros lodo, transformar tudo em flores.
Imortal Atitude
Abre os olhos à Vida e fica mudo!
Oh! Basta crer indefinidamente
Para ficar iluminado tudo
De uma luz imortal e transcendente.
Crer é sentir, como secreto escudo,
A alma risonha, lúcida, vidente...
E abandonar o sujo deus cornudo,
O sátiro da Carne impenitente.
Abandonar os lânguidos rugidos,
O infinito gemido dos gemidos
Que vai no lodo a carne chafurdando.
Erguer os olhos, levantar os braços
Para o eterno Silêncio dos Espaços
E no Silêncio emudecer olhando...
Cárcere das Almas
Ah! Toda a Alma num cárcere anda presa,
soluçando nas trevas, entre as grades
do calabouço olhando imensidades,
mares, estrelas, tardes, natureza.
Tudo se veste de uma igual grandeza
quando a alma entre grilhões as liberdades
sonha e sonhando, as imortalidades
rasga no etéreo Espaço da Pureza.
Ó almas presas, mudas e fechadas
nas prisões colossais e abandonadas,
da Dor no calabouço, atroz, funéreo!
Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!
Vejo-a de vez em quando, costumeiramente no lado oposto da rua. Às vezes com o namorado, muito bronzeado também. Da última vez, tomávamos o mesmo ônibus. Ela subiu primeiro. Abaixo de alguns centímetros de pele morena e pêlos descorados, a etiqueta dizia: "Selected material".
Talita cumi
E, tomando a mão da menina, disse-lhe: A persistirem os sintomas, um médico deverá ser consultado, que traduzido quer dizer: "Se os sintomas persistirem, consulte um médico".
Valentino Rossi esta semana dirigiu mais rápido um carro da Ferrari que o piloto de testes da escuderia. Saberá ele que a Bandeirante ainda faz triciclos?
Uma das duas ou ambas
Ou é bom estar de volta ou o sono me predispõe à alegria.