A tangerina, bem como a laranja, é um símbolo solar. Tem o sol na forma e na cor o fogo. Seu cheiro irrompe da casca tomando a cozinha, ou a árvore no pomar, e quando a comemos o azedume nos aperta os olhos como a luz de manhã clara demais, libertada de cada alvéolo.
Um dia o cliente sumiu. Não notou imediatamente a ausência mas notou-a no domingo. Ele deixara de vir. "Estará doente?" pensou. Veio a segunda semana e a terceira; o cliente não. Correram os meses. Depois de quatro ou cinco ele veio. "Sumido, hein?" espantou-se o barbeiro. O cliente meneou a cabeça, nem sim nem não. Sentado, esperou sua vez, cortou o cabelo e pagou o serviço. Depois de três semanas, voltou. Depois de duas de novo. Daí em diante, semanalmente, no máximo na terça ou quarta-feira. O barbeiro não entendeu nada. Varreu do chão o cabelo cortado e disse, meio para si, meio para o canário na gaiola: "Sujeito estranho!" O canário concordou, mas não disse nada.