O prefixo sui na palavra “suicídio” é o equivalente latino do pronome reflexivo “se”. Logo, a regência do verbo suicidar-se é etimologicamente redundante.
A palavra “comigo” compôs-se pela união da preposição "com" e do pronome "migo", ao qual corresponde o latino mecum, isto é, “comigo”: me + cum. O mesmo nas demais pessoas: contigo, consigo, conosco, convosco. Em todas essas palavras, a primeira e a última sílaba querem dizer “com”. Logo etc. etc.
A semelhança da tragédia de Otelo, o mouro de Veneza (é o nome da peça, não reclameis comigo), com a queda do homem contada no Gênesis é mais ou menos evidente: Otelo se deixa levar pela conspiração de Iago e perde os “divinos” Cássio e Desdêmona, como o homem dá ouvidos à serpente e perde o Éden. Certo. Muito mais interessante, porém, é a semelhança destes dois discursos, escritos com poucas décadas de intervalo:
Virtue! a fig! 'tis in ourselves that we are thus or thus. Our bodies are our gardens, to the which our wills are gardeners: so that if we will plant nettles, or sow lettuce, set hyssop and weed up thyme, supply it with one gender of herbs, or distract it with many, either to have it sterile with idleness, or manured with industry, why, the power and corrigible authority of this lies in our wills. If the balance of our lives had not one scale of reason to poise another of sensuality, the blood and baseness of our natures would conduct us to most preposterous conclusions: but we have reason to cool our raging motions, our carnal stings, our unbitted lusts, whereof I take this that you call love to be a sect or scion.Hail horrours, hail
Infernal world, and thou profoundest Hell
Receive thy new Possessor: One who brings
A mind not to be chang'd by Place or Time.
The mind is its own place, and in it self
Can make a Heav'n of Hell, a Hell of Heav'n.
(Satanás em Paradise Lost, livro I, versos 250-255.)
A mente é soberana, dizem eles; cada um é e cada um faz o que resolve ser e fazer, dizem eles; ao passo que a cristandade aprende que Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim. Pois, no íntimo do meu ser tenho prazer na lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros. Miserável homem que sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte? (Romanos, VII, 22-24.)
“Quem me libertará?" Sabeis Quem.
... que eu desejava ter escrito: a carta de Lúcio Flávio Pereira publicada na Folha de S. Paulo hoje:
“Não fiquei perplexo nem condoído com a carraspana meio descortês endereçada ao Judiciário pel
, A5, 23/4) que gravitam em torno do mais bem remunerado, privilegiado, lento, arrogante e omisso dos três Poderes.
Nada disso influi na percepção dos brasileiros esclarecidos, que sentem raiva do Executivo, vergonha do Legislativo e asco do Judiciário.”
Ó inveja dos dois parágrafos últimos! Maldosamente me consolo observando que parece ter-se utilizado eventualmente (“ocasionalmente, de vez em quando”) como eventually (“afinal de contas, enfim”), erro que costumamos ver “o outro caminho ao redor” (the other way around), digo, ao inverso.
Shakespeare: ...death, the undiscover'd country from whose bourn no traveller returns...
Livro de Jó: quando houver decorrido poucos anos, eu seguirei o caminho por onde não tornarei. (XVI, 22)
Shakespeare: Life's but a walking shadow...
Livro de Jó: [O homem] foge como a sombra, e não permanece. (XIV, 2)
Papai vai perdendo os cabelos,
Mamãe está dormindo mal:
Seu filho quer, quando for grande,
Ir para o Banco Mundial.
Nas outras famílias, sortudas,
Nenhum filho apronta uma dessas.
Apenas fica viciado
E um dia lhes quebra as cabeças.
Mamãe vai perdendo o apetite,
Papai anda péssimo igual:
Filhinho quer ser um banqueiro
Com os do Banco Mundial.
“I’ve drank from the sun, I’ve swimmed in the breeze,”
Dizia o poeta, erguendo o nariz
As if he expected a sneeze,
“Mas coisas há i que, diabos! não fiz:
Je veux faire une grosse bêtise!”
Conheço um gato que, embora não muito prático, não tem igual. Não é arisco, não foge de estranhos – nem os nota, em verdade. Se o cutucamos, em vez de afastar-se, tenta pegar nossa mão com as patas e mordê-la, porém sem meter nela o dente, como brincando à maneira dos cães. Castraram-no para que se acomodasse em casa, mas não se acomodou, não engordou, não deixou de caçar passarinhos e lagartixas nem de voltar ferido das refregas noturnas com outros gatos, seu esporte. Não sei se o gato branco é mesmo um gato ou um tigre siberiano em miniatura e sem listas; ou se, além do que lhe tiraram, não tem dentro dele outro par de testículos reservas.