~ 30.03.03

Afrancesando-me, devagarinho...Amigo meu Rimbaud,Pergunto com

Afrancesando-me, devagarinho...

Amigo meu Rimbaud,
Pergunto com você:
Ô saisons, ô châteaux,
Quel
blog est sans clichés?

Afixado por Glhrm Qndt às 7:36 PM

~ 20.03.03

Ordem dos Avocados do BrasilVi

Ordem dos Avocados do Brasil

Vi no espaço de poucos dias as traduções seguintes: educated people como "povo educado", sugerindo que os iraquianos pedem tudo "por favor" e dizem "obrigado"; get the treats como "receber tratamento", que obviamente é do que precisa o tradutor; do a hat trick, que é marcar três ou mais gols numa partida, como "dar um chapéu"; understatement of the year como "declaração do ano", o que simplesmente inverteu o sentido da observação; e thong como "língua". Como alguém faz para ter uma "língua" a mão para entrar numa jacuzzi, isso não ficou muito claro. Aguardo ansioso o dia em que eu veja traduzirem avocado como "advogado"... para poder dizer em seguida: "Faz sentido! Ambos são difíceis de engolir".

Afixado por Glhrm Qndt às 7:38 PM

~ 11.03.03

Fechado para balançoInformamos aos nossos

Fechado para balanço

Informamos aos nossos leitores, aos costumeiros como aos eventuais, que estaremos fechados até o dia primeiro de abril por motivos de internação do autor em si mesmo. Agradecemos a incompreensão, e até pediríamos que voltem sempre, se fizéssemos caso de que voltassem mesmo sempre, algum dia, ou nunca mais.

Afixado por Glhrm Qndt às 3:23 PM

~ 10.03.03

Caso raro mas não único na literatura psiquiátrica

Estive, na semana passada, na casa de outro velho amigo meu que aniversariava. A conversa dos homens convidados não chegou a entediar-me, contudo precisei logo ir à cozinha, onde estavam as poucas mulheres, sentadas. Sentia falta, eis o problema, das converas que ouvia no escritório, dividindo uma sala ampla com quatro advogadas: sentia falta de ouvir falar de sandálias, blusinhas e calças, compromissos no cabeleireiro e unhas pintadas, presentes para os namorados e discussões com eles. Meu psicólogo, o Joaquim, diagnosticou o problema no seu Quincas Borba:

Carlos Maria amava a conversação das mulheres, tanto quanto, em geral, aborrecia a dos homens. Achava os homens declamadores, grosseiros, cansativos, pesados, frívolos, chulos, triviais. As mulheres, ao contrário, não eram grosseiras, nem declamadoras, nem pesadas. A vaidade nelas ficava bem, e alguns defeitos não lhes iam mal; tinham, ao demais, a graça e a meiguice do sexo. Das mais insignificantes, pensava ele, há sempre alguma cousa que extrair. Quando as achava insípidas ou estúpidas, tinha para si que eram homens mal acabados.

Não se conhece tratamento. Quem souber de alguém que o tenha descoberto, favor indicar-me o autor da proeza para que eu mande matá-lo.

Afixado por Glhrm Qndt às 6:23 PM

~ 9.03.03

Dois pólos perfeitos poéticos

As duas melhores poesias que conheço em português são aquelas redondilhas célebres do Camões que começam: Sôbolos rios que vão; e O Anjo Anunciador, do Bruno Tolentino. Digo logo que são duas poesias cristãs, o que pode franzir o cenho de algum pobre coitado que sofra, digamos, medo de altura; entretanto eu as tinha já por tais antes que eu mesmo fosse cristão. Em parte alguma encontrei desolação interior como a das redondilhas camonianas, em parte alguma o sublime da anunciação angélica de Tolentino. Assim, diria o apóstolo, sede como eu sou, leitores, pois em nada sou diferente de vós, e notemos juntos que essas duas obras magníficas não apenas são cristãs, mas formam um casal perfeito sob uma variedade de aspectos.

Ambas são paráfrases de texto bíblico: esta da anunciação em Lucas I, 26-37, aquela do Salmo CXXXVII. Na sua imagem na água acha Camões uma verdade particular:

E vi com muito trabalho
Comprar arrependimento.
Vi nenhum contentamento,
E vejo-me a mim, que espalho
Tristes palavras ao vento.

O reflexo é porém não só dele, mas doutra verdade maior, universal, que Tolentino descreve:

Mas a haste, o jasmim despetalado,
é tudo o que ainda resta
dos canteiros do céu aqui na terra,
que um seco vento cresta
e uma longa agonia dilacera.

Os poetas tratam do amor entre o Criador e a criatura: Tolentino, do momento em que desce Deus até o homem para salvá-lo, e Camões do homem que busca a Deus para elevar-se. Cada um, contudo, embora se concentre num lado da relação, lembra o outro, pois o anjo de Tolentino exorta Maria a aceitar em seu ventre o Menino:

ouve este estranho anúncio
e deixa-te invadir para colher,
mais fundo que a razão
e o corpo, o sopro cálido, o prenúncio
da mais viva alegria:
entreabre-te ao clarão
da visita suave,
mas terrível, terrível, deixa a ave
do imenso sacrifício te ofender.

E Camões, por sua vez, sabe que foi inscrita no homem a procura por Deus graças (seja-me perdoado o triplo trocadilho) à pena de Cristo:

Que a alma é tábua rasa
Que, com a escrita doutrina
Celeste, tanto imagina,
Que voa da própria casa
E sobe à pátria divina.

De modo que, juntas, são um compêndio excelente não apenas de versos fantásticos, mas de educação espiritual, que se poderia, sem perda nenhuma, resumir com Camões:

A vós só me quero ir,
Senhor e grão Capitão
Da alta torre de Sião,
À qual não posso subir,
Se me vós não dais a mão.

Afixado por Glhrm Qndt às 10:04 PM

TolstoyQuase às quatro da manhã

Tolstoy

Quase às quatro da manhã de hoje, de problemas renais, morreu Ivan Ilych. Quis morrer com ele, mas em vez disso engoli meio choro e dormi.

Afixado por Glhrm Qndt às 9:27 PM

~ 1.03.03

A estranha família Qndt

No apartamento dos meus pais, ele assistia a um filme na televisão. Tentáculos. Algo sobre um transatlântico atacado por uma lula gigante. (Essa propaganda subliminar direitista anda cada vez mais indiscreta.) Em certo momento se rompe o casco, o navio faz água, os tentáculos avançam pelos corredores estreitos no encalço dos sobreviventes. Um deles joga atrás de si uma granada e corre o caminho alagado. A granada estoura, há uma bola de fogo, os fugitivos são jogados para a frente. Entre os espectadores, este diálogo:

– Curioso! A granada detonou debaixo d'água...

– ... mas a onda de choque só se propagou pelo ar. Eu também percebi. (Pequena pausa.) Deus me livre, como somos chatos...!

Afixado por Glhrm Qndt às 11:41 PM

Guia prático de leitura do letra miúda

Tudo quanto escrevo e falo, escrevo e falo a sério e corresponde ao que faço e ao que penso, literalmente, nos mínimos detalhes e até as últimas conseqüências. Menos quando estou brincando.

Afixado por Glhrm Qndt às 11:30 PM

magis amicus erit quam fraterNo

magis amicus erit quam frater

No prefácio à edição norte-americana de 1984 do livro Em busca de sentido, de Viktor Frankl, escreve Gordon W. Allport:

O escritor e psiquiatra Viktor E. Frankl costuma perguntar a seus pacientes que estão sofrendo muitos tormentos grandes e pequenos: "Por que não opta pelo suicídio?" É a partir das respostas a esta pergunta que ele encontra, freqüentemente, as linhas centrais da psicoterapia a ser usada. Num caso, a pessoa se agarra ao amor pelos filhos; em outro, há um talento para ser usado, e, num terceiro caso, velhas recordações que vale a pena preservar. (Tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline.)

Quase sete anos atrás, eu me fazia essa pergunta constantemente, a pergunta que hoje o bom Deus me apagou da mente. Não tinha a fé que hoje a responderia e que, mais ainda, a impede mesmo de enunciar-se. Fazia-a quase todas as noites. Respondia-me que tinha uma verdadeira amizade, e pendurado nesse fio durava até o dia seguinte. Seguindo o mesmo fio dessa amizade, ninguém há de espantar-se, cheguei um dia, após vários percalços, a Quem me deu gratuitamente a esperança, a fé, o sentido.

Nesta data o sujeito dessa amizade – magis amicus quam frater, como em Provérbios XVIII – faz aniversário. Não sei se o parabenizo ou lhe agradeço. Na dúvida, lhe digo "Feliz aniversário".

Afixado por Glhrm Qndt às 11:13 PM