Na televisão, mais uma estúpida pergunta: devem ou podem as mulheres participar da bateria de uma escola de samba? (Houve tempo em que a palavra escola na expressão me perturbava, mas as escolas propriamente ditas ajustaram-se de modo que a tornassem correta.) Eu diria que a habilidade de segurar um ritmo ou uma cadência não tem sexo, bem como o sexo, por sua vez, não tem essa habilidade, e em verdade o digo, pois não sou capaz de manter seguidamente um batuque ou um movimento pélvico. Quem for capaz de tamborilar, tamborile. Daí passo ao manifesto anunciado.
Não sei de atividade que requeira talentos e dons tão especificamente masculinos que mulher, pelo menos uma, não a possa exercer, porventura com a exceção de engendrar pimpolhos noutra mulher. Creio que as mulheres podem tomar qualquer ofício; podem tomar as rédeas em todos os campos; conseguem fazer qualquer coisa a que sejam desafiadas, se a tal se determinarem, e com eficiência exemplar. Aguardo mesmo o dia em que o farão, e com brilho, garbo e honradez, e tudo o que houver de trabalho importante há de estar em suas mãos.
Enquanto o fizerem, fico tomando caipirinha.
Não me bastasse o prazer estético de ver os reis da savana, visto que me sempre agradaram mamíferos carnívoros, os programas dos canais educativos dão-me o redobrado prêmio, e gratuito, de aprender sobre a vida: a minha e quem sabe a tua, leitor querido. Um desses programas, mostrando alguns leões lambendo uns aos outros, advertia ao telespectador que a insuspeita carícia tinha a função secreta de remover parasitos. Desse pequena informação, decerto ouvida a algum leão que rosnasse enquanto dormia, entendi muitos de meus próprios hábitos. Certamente beijo pescoços para avivar a circulação na aorta e na jugular; aperto coxas averiguando se nas fêmeas há propícia musculatura para minha futura ninhada; e sem dúvida meus estreitos abraços estimulam nelas vários órgãos internos.
Lamentavelmente, ainda permanece obscura a causa evolutiva pela qual afago cachorros e gatos. Talvez mais um ou dois programas sobre guepardos, ursos ou coiotes me ajudem a compreender em detalhe a função geral do carinho.
Em reportagem do jornal Hoje do dia 19 de fevereiro:
A liminar é uma decisão provisória, mas abre precedente para outros estudantes. É o caso de Aline Alves que procurou a Defensoria Pública porque não tem dinheiro para pagar um advogado particular. A estudante ficou em 35º lugar no concurso para medicina, mas por ter estudado em escola particular perdeu o lugar para outro candidato.
“Foi meu ano de sacrifício, ano do meu pai de sacrifício prejudicado por essas cotas que eu particularmente sou contra porque eu acho que não corrigimos um erro histórico em cima da hora” – falou Aline.
Curiosamente, sei-o porque vi a matéria na televisão, a menina é parda, mulata, morena, afro-brasileira. Poderia obter a vaga pela quota respectiva. Porventura supôs mais certo adquiri-la por meio do esforço real e concreto seu e de seu pai, do que apelar para o legado dos mortos. Mau negócio, menina. Essa já não é a moeda de troca neste país.
Na edição do dia 20 de fevereiro, entrevistaram um belo rapaz negro:
Igor Anatoli foi beneficiado pelo sistema de cotas e acha que os negros precisam de oportunidade. “As dificuldades que o negro enfrenta na sociedade são muito diferentes daquelas que pessoas normais enfrentam. Por isso há a necessidade de colocar o negro nos diversos pontos da sociedade” – justificou.
Notem na declaração dele o subentendido pavoroso de que os negros não são pessoas normais.
"Você ligou para X... Y... Z, aqui fala o Glhrm Qndt. No momento fui conscientizar a população e resgatar a cidadania, e não posso atendê-lo. Por favor deixe seu recado após o grito dos excluídos e, assim que eu volte, organizarei manifestação para divulgar sua mensagem". (Ouve-se o berro do Tarzã.)
É verdade que eu tinha, fazia tempo, a vontade de traduzir pedaços do Mere Christianity, mas o que me impeliu a finalmente pôr mãos à obra e, especialmente, a citá-lo aqui, foi uma coisa que escreveu o grande Julio no final do mês passado: "Um dos princípios mais importantes que julgo reger a vida virtuosa em seus inícios é o de tentar sempre 'forçar' um comportamento correto mesmo quando não se 'sente' virtuoso". Ele tem toda a razão. A propósito, dentre o que citei do Lewis, a última parte foi extraída de um capítulo chamado Let's pretend, que justamente trata do esforço moral de fingir-nos melhor do que somos, na esperança de que no-lo tornemos. Contudo, mais cedo ou mais tarde – em geral mais tarde – se descobre que... (Vai, aproveita as reticências para escorregar abaixo!)
Faz tempo que tenho vontade de traduzir pedaços do Mere Christianity de C. S. Lewis. A clareza com que ele expôs o cerne da epístola aos romanos, sem dizer que o está fazendo, é, em si mesma, graça e milagre. Dou-me a liberdade de juntar pedaços de capítulos distintos, crendo que não firo o sentido de nenhum deles nem o do ensinamento como um todo:
"A principal coisa que se aprende duma tentativa séria de praticar as virtudes cristãs é que não conseguimos. Se houvesse alguma idéia de que Deus nos colocou nalguma prova, e de que pudéssemos merecer tira boas notas, isso tem de ser apagado. Se houvesse a idéia de barganha de algum tipo – qualquer idéia de que pudéssemos cumprir nossa parte do contrato e assim pôr Deus em débito conosco, de modo que Lhe coubesse, por justiça, cumprir a sua – isso tem de ser apagado." (Book III, ch. 11)
"Só que não dá para descobrir, nesse sentido, nosso fracasso no seguir a lei de Deus senão tentando o mais possível (e fracassando). A menos que tentemos de verdade, não importa o que dissermos, sempre vamos no fundo ter a idéia de que, se nos esforçássemos um pouco mais da próxima vez, nós chegaríamos a ser inteiramente bons. Assim, de certo modo, a estrada de volta para Deus é de esforço moral, é de fazer mais e mais força. Mas sob outro aspecto, não é o esforço que nos levará de volta. O esforço leva ao momento vital em que nos voltamos para Deus e dizemos: 'Tu é que vais ter de fazer isso. Eu não consigo'." (Book III, ch. 12)
"Posso em certa medida controlar meus atos: não tenho controle direto sobre meu temperamento. E se (como eu disse antes) o que somos interessa ainda mais do que aquilo que fazemos – se de fato o que fazemos importa essencialmente como indício do que somos – segue-se que a mudança que eu mais preciso sofrer é tal que meus próprios esforços diretos e voluntários não conseguem obter. E isto se aplica às minhas boas ações também. Quantas delas se fizeram pelos motivos certos? quantas por medo da opinião pública ou exibicionismo? quantas por uma espécie de teimosia ou sentimento de superioridade que, em circunstâncias diferentes, podia igualmente levar a um ato ruim? Mas não posso, por esforço moral direto, dar-me novos motivos. Após os primeiros poucos passos na vida cristã, percebemos que tudo o que realmente precisa ser feito em nossas almas só pode ser feito por Deus." (Book IV, ch. 7)
Hoje me acudiu repentinamente à lembrança a revolta da vacina: a insurreição popular no Rio de Janeiro contra a vacinação compulsória. Fosse um capítulo de ficção, dispensá-lo-ia por se me afigurar duplamente inverossímil que o Estado um dia impusesse algo saudável... ou que o brasileiro lhe resistisse.
Oficialmente me foi comunicado que o escritório do meu pai é uma desONG, ou seja, uma desorganização não governamental, resistindo com valor à política oficial da governante daquela casa.
O inigualável príncipe dos humoristas brasileiros é o sujeito que meteu o P na sigla MPB. Há de o ter feito às gargalhadas, alternando na vitrola uma courante das Suítes Inglesas e o Brejeiro de Ernesto Nazareth.
Na epístola de São Paulo a Filemom, versículos 10 e 11, há um trocadilho entre o nome de Onésimo, em cujo benefício foi escrita, e a palavra inútil. É que Onésimo significa útil. "O Útil, que te foi inútil, agora é útil a mim e a ti". Soa àquele do Will Shakespeare no soneto 135:
Whoever hath her wish, thou hast thy 'Will,'
And 'Will' to boot, and 'Will' in over-plus;
More than enough am I that vex'd thee still,
To thy sweet will making addition thus.
Recorro às autoridades porque, estando eu ontem bufando, como sempre fiz, justifiquei-me afirmando-me um bufão de modos bufantes. Estraguei tudo mencionando búfalo... mas fique esse detalhe entre nós apenas, está bem?
"Nem nós lhe tiramos ou proibimos o seu cantar e bailar, nem ainda beber e alegrar-se, contanto que seja com a moderação devida, por lhe não fazermos a lei de Cristo pesada e triste, quando ela é jugo suave e leve".
Padre Antônio Vieira, carta ao Padre Provincial do Brasil, 1654.
Tudo que Deus criou pensando em você:
Fez a Via Láctea, fez os dinossauros.
Sempre que a escuto penso no casal jantando à luz de velas e o mancebo suspirando à rapariga, as mãos delas nas suas: Amor, pensando em ti é que Deus fez o diplodoco, o apatossauro e o tricerátops.
Quando pequeno eu brinquei no barro e na lama. Não o fazemos todos? Contudo eu limpava os pés ao entrar em casa, tomava meu banho, vestia cuecas limpas. Depois, universitário, eu me distraía das aulas de direito sindical lendo Machado e Carpeaux e em casa comia a janta assistindo a Pokémon. Não obstante, eu sabia o que era o quê. Por essa razão o cântico da eqüinidade feminina, pois que sabe o que é, donde vem, aonde vai, me constrange bem menos do que ouvir a Mulher de Cera e o Boneco de Ventríloquo anunciarem "beijar de língua". Antes quisera cantassem: pocotó, pocotó, pocotó.
Nas Lojas Americanas não há discos de música clássica. Não há. Quem vai lá já sabe disso: vai encontrar só discos do Daniel. Isso é bom? isso é ruim? Não sei; mas é honesto. Em outras, pergunta-se por um clássico e ouve-se: "Olha, nós temos dos três tenores". Três horrores! Melhor se não vendessem nada, como as Americanas.
Na semana que passou ganhei um livro. Ainda não consigo ler, minha alergia não mo concedeu e o livro necessita ar fresco. É de Mário Ferreira dos Santos e trata do capítulo de Aristóteles acerca da corrupção das coisas físicas. Foi um presente perfeito. Gosto de pensar na corrupção das coisas; na matéria que decai e decai e decai e nos leva consigo. Talvez por isso me agrade tanto Ferreira o irreGullar e suas bananas e pêras que se corrompem em abril, enquanto vivemos: "No fundo da quitanda/na penumbra/ferve a chaga da tarde/e suas moscas". Tudo cai sem que vejamos.
De tarde, domigo que era até uma hora atrás, eu vi um velho gol de velhos jogadores numa partida velha. Ademir da Guia driblou a zaga e cruzou a bola para Leivinha apenas colocá-la trave adentro. Leivinha não disparou feito louco pelo campo em seguida. Abriu os braços e esperou vir abraçá-lo Ademir, o dono da jogada. Nunca vi disso. Quando um sujeito marca um gol, sai correndo. Detesto isso, o mérito de vários gols bonitos é de quem o entrega pronto a outro. Não sabia que algum dia teve alguém essa dignidade que vi na velha gravação do jogo velho entre velhos jogadores. No campo gramado também ferve a chaga da tarde e suas moscas. Sinal dos tempos? Sinal do tempo. Entretando, a pêras mortas seguem-se as novas. O primeiro jardim renascerá, incorruptível então, depois de o derradeiro morto. Vejo que em torno de mim (ou dentro) as coisas caem, olho abismado, me assusto, perco o chão; mas é só vertigem.
O curitibano chega à primeira aula de alemão. Ensinam-lhe algumas palavras simples para denominar coisas simples, como aquela que está diante dele, ensinando-lhas: Lehrer. O curitibano tenta imitar, supõe ter conseguido, mas o professor diz que não é assim: é mais breve a segunda sílaba, o e fica reduzido. O curitibano tenta de novo, mas pronuncia longa e fortemente os dois ee de Lehrer. O professor decide usar o português para dar exemplos e comenta que o segundo e de Lehrer é reduzido e breve exatamente como os ee finais de leite ou quente ou ele. O curitibano não faz idéia do que o professor está falando.