~ 6.07.04

A loucura do rei

"Os infortúnios precipitaram-se em aluvião, descaminhando consigo os destinos da coroa. Falecida a rainha, o monarca, solitário na viuvez apesar dos cuidados incessantes de quantos o cercavam, ia perdendo o tino e o governo de seus humores. Olhos incrédulos o viam possesso de furor mais e mais feroz no trato dos amigos e na condução do reino. Aonde a infeliz desgraça da mulher o tinha conduzido! A ele, clemente e sábio no trono real desde moço, amado mesmo nos cantos da nação mais remotos onde seu nome pouco se ouvia! Tornado outro, asfixiava o povo, que já não via, com exigências onerosas das quais não carecia o tesouro palaciano; e também a seus conselheiros próximos, os que se atreviam ainda a falar-lhe, ameaçava com palavras antes nunca ouvidas de sua boca.

Na corte, tantos que um dia juraram lealdade ao governante conspiravam contra ele, sussurrando planos e ardis e reclamando que se elevasse à coroa o príncipe herdeiro, à força de armas se preciso. Ninguém o via no castelo, contudo, e diziam que temesse que o poderoso defensor do reino tomasse o lado do rei contra seu herdeiro, sufocando a rebelião.

O príncipe, longe do castelo ou de tal receio, mas dividido entre suas fidelidades, ao pai e à pátria, caminhava destilando o choro nas desoladas planícies, entoando amargamente os cantares que na infância ouvira:

Longas navegam as nuvens!
Pesa como a terra o céu
Nestes ombros, minha Etérnia!"

(Alexandre Herculano, Crônicas de Grayskull.)

Afixado por Glhrm Qndt em julho 6, 2004 9:10 PM