~ 22.06.07

circunspecta e majestosa

i komu eu palmilhassi vagamenti
1 estradeenha d minas...pedregoza...
i nu fexu da tardi 1 sinu rocu

c misturassi au som d meus sapatus
ke era pausadu i secu; i avis pairassi
nu ceu d xumbu...i suas formas pretas

lentamenti c fossi diluinu
na escuridaum maior...vinda dus montis
i d meu propriu se disenganadu...

a makina du mundu c entreabriu
p qm d a rompe jah c eskivava
i soh d u te pensadu c karpia......

Afixado por Glhrm Qndt às 5:42 PM

~ 12.06.07

Raiz e radical

Descubro ser vegetariano.

Só que não praticante.

Afixado por Glhrm Qndt às 4:38 PM

~ 26.05.07

Bloodhound Meridian

Ele acordou sentindo frio e levantou-se e era noite ainda e a estrela da manhã brilhava abandonada à beira do céu como a última vela acesa numa capela escura. Andou lentamente farejando o caminho no barro mantendo a cabeça baixa entre as poças de chuva negras como sangue na escuridão e não bebeu de nenhuma. Parou sentindo o cheiro de outros cães. Escutou seus latidos crescendo de algum beco próximo cruzou a rua devagar e afastou-se dali mancando ao longo de um muro de pedra que corria por toda a rua como se fosse anterior a ela e à cidade em volta e a mãos humanas e quando o cheiro dos outros se tornou fraco ele ergueu uma das patas e a urina jorrou ardendo no ar frio e ele caiu desajeitado sobre as costelas agitando as três pernas e molhando-se no líquido morno que escorria dele e o vapor fétido o envolvia enquanto ele se torcia parecendo ferver agonizante na poça de água barrenta e urina.

Afixado por Glhrm Qndt às 5:43 PM

~ 10.05.07

Save that my soul's imaginary sight
Presents thy shadow to my sightless view

Ou:
cego, quem tem um olho

Camões:

Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que pera mim foi sonho nesta vida.

Lá nu'a soidade, onde estendida
A vista pelo campo desfalece,
Corro para ela; e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: "Não me fujais, sombra benina!"
Ela, os olhos em mim cum brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser,

Torna a fugir-me: e eu, gritando: "Dina..."
Antes que diga mene, acordo e vejo
Que nem um breve engano posso ter.


Milton:

Methought I saw my late espoused saint
Brought to me, like Alcestis from the grave,
Whom Jove's great son to her glad husband gave,
Rescu'd from death by force, though pale and faint.

Mine, as whom wash'd from spot of child-bed taint
Purification in the old Law did save,
And such as yet once more I trust to have
Full sight of her in Heaven without restraint,

Came vested all in white, pure as her mind;
Her face was veil'd, yet to my fancied sight
Love, sweetness, goodness in her person shin'd

So clear as in no face with more delight.
But oh! As to embrace me she inclin'd,
I wak'd, she fled, and day brought back my night.

Afixado por Glhrm Qndt às 3:32 PM

~ 15.02.07

Pensando responder a um amigo que achou dificuldades em ler na ortografia original um auto de Gil Vicente

Não para menos fazer
Do mais que tão bem disseste:
Que essa farsa é grão prazer
Mas doce de gosto agreste
— Não me vás contradizer
Que "o termo não era este" —

Percorrê-la, tentar ler,
Ainda que ao fim nos reste
Mais dúvida que saber,
Será no mínimo um teste
Para o leitor: perceber
Que a nossa língua é uma peste.

Afixado por Glhrm Qndt às 7:01 PM

~ 28.07.06

ao que, replicando-lhes, falou:

Ser classe médium é um estado de espírita.

Afixado por Glhrm Qndt às 3:30 PM

~ 25.11.05

A andorinha fingidora

Não, não se foram. Silêncio provisório, falso alarma.

Afixado por Glhrm Qndt às 5:34 PM

E não estou velho.

1. Vim caminhando procurando na grama algum dente-de-leão para ver se é mesmo dentada a folha. Do francês dent-de-lion o inglês dandelion, mas os franceses dizem pissenlit devido a propriedades diuréticas da planta, conta-me o senhor Robert. Que povo prefere o nome "mija-na-cama" a "dente-de-leão"?

2. Houve tantos passarinhos sempre nestas áreas próximas, de tantas formas e tantas cores? Deus meu! que moro há muito tempo aqui, e não estou velho.

3. Um réptil deu-se o trabalho de meter o preservativo e a embalagem num pequenino saco plástico, mas não o de sair do veículo, buscar uma lixeira.

4. Outro réptil, a pequena cobra sem veneno — não falei dela enquanto viveu — metálica, esverdeada com reflexos de cobre mas já sem reflexos seus, pois morta, na calçada; depois de algumas horas, virada de barriga para cima por algum moleque, branca, parecendo inofensiva mais do que era quando escorria obliquamente para a grama.

5. De fato, jamais tive olho e ouvido que mais esperassem o impossível e nem estou velho. Não sei se aguardar (mesmo impossíveis) melhoras ou pioras.

6. É dentada realmente a folha.

Afixado por Glhrm Qndt às 4:33 PM

~ 22.11.05

Foram-se.

Cheguei da rua, escutei um piado — um conhecido — no ar. Olhei para o alto: uma andorinha. Voava com outras menores. Pode ter sido o primeiro vôo.

Não há mais piados na parede, os de que me queixei por semanas, falando só. Faz silêncio. Vou queixar-me agora disso? Quem sabe. Foram-se.

Afixado por Glhrm Qndt às 8:28 PM

~ 7.11.05

O cachorro fingidor

Foi hoje à tarde, perto de onde moro. Um cachorro bege vinha sozinho. Devia ser estranho ao lugar porque um dos três ou quatro que já estavam lá começou a latir. O que vinha sozinho foi dali com cautela andando embora ao lado de uma moça que passava e que nem o notou. Um preto saiu correndo atrás dele e um pardo, vendo esse correr, correu junto. O bege que saía, logo que viu os outros chegando contra ele em correria contornou a moça que ele acompanhava e que nem o notara, e latiu. A moça o notou enfim, não viu os que chegavam correndo por trás dela e seguiu andando. Os que vinham perseguindo o bege, chegando perto, acharam entre eles e o bege a moça, que prosseguia caminhando inteiramente alheia ao caso; cogitaram talvez que ele não estivesse mesmo sozinho, mas com a moça; o bege e sozinho latiu outra vez; e deixaram que ele fosse embora.

Afixado por Glhrm Qndt às 9:33 PM

~ 5.11.05

Condomínio

Uma andorinha fez ninho na caixa que envolve o condicionador de ar do escritório. Há uns passarinhos lá, disse o zelador, pelados ainda, mas não sei quantos. Tenho ouvido piados há semanas, todo dia. Só hoje, só agora, faz poucos minutos, abri a cortina e vi realmente a andorinha. Antes era uma sombra na cortina que ia e que vinha, supus que fosse um pardal.

Cheguei perto da janela distraído, abri a cortina, fui ver as nuvens, e ela chegou voando como na minha direção, desviando já bem perto de mim. Não veio à caixa do ninho, ao lado da janela: ficou voando em círculos, decerto com medo de mim e com medo de me deixar saber o lugar dos filhotes. Fez um círculo, na verdade uma elipse, fez duas, fez três. Tive remorso do medo dela e dei uns passos atrás, me escondi num canto do escritório. Não adiantou e ela não veio. Fez mais círculos. Quando ainda eu fechava a cortina ela resolveu-se enfim e ouvi piarem bastante na caixa outra vez.

Afixado por Glhrm Qndt às 4:31 PM

~ 21.10.05

Sabiamente já dizia
O finado Zacarias

Read Joyce greatly, O daughter of Zion; shout, O daughter of Jerusalem.

Afixado por Glhrm Qndt às 6:34 PM

~ 24.09.05

Contos verídicos de horror e mistério

Ontem perto da meia-noite um bicho esvoaçante, nada pequeno para um inseto, apareceu no meu apartamento. Vi-o com o canto dos olhos quando passou de um quarto a outro. Foi e voltou. Pela forma, devia ser borboleta, daquelas que passam, grandes e pretas, às vezes por entre os edifícios aqui. Fui ver, e a criatura veio de repente voando lá do quarto ao meu encontro. Pensei que ia acertar-me o rosto, joguei-me no assoalho prezando a fortaleza de meu coração. Muito rápida para ser borboleta, não ia às lâmpadas feito mariposa, não pousou na parede como mariposa. Foi de novo de um quarto a outro, investigou a sala, entrou num banheiro e sumiu. Era certamente um morcego.

À meia-noite, hora fatídica, chegou esse morcego àquele mesmo quarto vago onde até pouco antes se havia hospedado por uns dias... o Marcelo Rota.

Afixado por Glhrm Qndt às 6:19 PM

~ 13.09.05

Pinóquio

Era uma vez...

"—Um rei!" — dirão logo os meus pequenos leitores.

Não, meninos, errastes. Era uma vez um pedaço de...

"—Madeira!"

Bom... é, está certo, era um pedaço de madeira. Não de madeira nobre, mas um...

"—Um mero pedaço de lenha!"

...um mero pedaço de lenha, daqueles que no inverno...

"—No inverno se jogam na lareira e no aquecedor para acender o fogo e para esquentar os quartos!"

Muito bem, meus pequenos leitores... é assim? Todo mundo para a cama ! e ai de quem abrir a boca!

Afixado por Glhrm Qndt às 1:03 AM

~ 30.08.05

Pastoril

O mar quando lá desde o fundo tem muita espuma (por causa do vento contrário talvez, eu não sei) os surfistas dizem-no "carneirado".

Afixado por Glhrm Qndt às 11:36 PM

The stuffed tiger and stuff

Sob sob. Sniff. Sigh.

Afixado por Glhrm Qndt às 10:27 PM

~ 18.08.05

The impractical joke

Fui-me tornando a paródia da pessoa que eu quis ser.

Afixado por Glhrm Qndt às 12:34 AM