outubro 11, 2004
Diotima
o universo: uma malha de letras minúsculas, de proporções infinitesimais. Joca Reiners Terron, Não há nada lá
1. Sou a noiva e o noivo, e por meu esposo fui gerada.
Soterrada pelos lençóis azuis, sua avó parecia um resto encarquilhado de pernil. Estava morrendo há tempo demais, sentada pelos cantos da casa, quase imperceptível se não fosse o cheiro de merda que nem a enfermeira particular nem as fraldas geriátricas pareciam capazes de fazer sumir. Desde o primeiro derrame, estava sempre encolhida em alguma poltrona, com um terço imóvel na mão, como se fosse um holograma que de noite precisava ser carregado até o quarto. No último sábado, desabara de um só golpe no chão da sala de jantar, um pouco antes da sobremesa. Ninguém a tinha visto ficar de pé, e depois que caiu a família toda permaneceu em um semicírculo quieto ao redor de sua carne minúscula até que Lucas, de joelhos, anunciou: Tá viva, chamem uma ambulância. Do chão da sala de jantar ela seguiu direto para o leito do hospital, sem abrir os olhos até ontem, quando despertou do que os médicos consideravam uma espécie indistinta de coma e começou a falar.
2. Sou a mãe de meu pai e a irmã de meu esposo e ele é meu fruto.
Carolina!, ela sorri quando apareço na porta, Vem cá! Puxo uma cadeira e sento ao lado da cama. Ela agarra meu braço com sua mão cheia de manchas e começa a delirar: primeiro anuncia que minha mãe vai ter outro filho, depois diz que eu vou ter um filho, e agora, olhando para algum ponto atrás de meus ombros, repete sem parar que Deus vai ter um filho, Carolina, Deus vai ter um filho. Olho um tanto constrangida para a enfermeira que vem retirar o almoço e explico baixinho que Vó, a mãe morreu de câncer há muito tempo, não lembra? Eu e o Lucas éramos pequenos ainda, e aí depois a senhora veio morar com a gente. Ela desvia o olhar para o teto, cruza as mãos sobre o peito, faz um bico e diz Deus vai ter um filho, Carolina. Levanto da cadeira, passo a mão por seus cabelos finos e digo Vó, isso já aconteceu, vó. Ela agarra de novo meu braço, nunca imaginei que ainda tinha tanta força, e desata a falar. O arcanjo Gabriel apareceu para mim noite passada, Carolina. Deus vai ter um filho, e o filho novo de Deus vai nascer de mim. Pego minha bolsa pendurada na cadeira e resmungo que Conheço essa história, vó, mas tu não é mais virgem, fica quietinha e descansa, fica quietinha e descansa, e saio do quarto sofrendo o sorriso entre aquelas rugas.
3. Sou a escrava daquele que me preparou. Sou a soberana de minha prole.
Quando chega na festa, acompanhada de seu tradicional atraso de hora e meia, Carlos já está bêbado. Em cinco minutos já estão gritando quase mais alto do que o som mecânico, e quando cansa da briga ela se afasta e o deixa encostado no balcão com o copo de vodca. Dança com as amigas, fuma maconha, bebe tequila, volta a dançar. Está caminhando em direção ao banheiro quando Carlos a puxa pelo braço e diz Vambora, ela diz Não mesmo e ele a puxa pelo cabelo repetindo Vambora, porra. Arrastada até o carro, não diz uma só palavra durante todo o trajeto, nem reclama quando ele a empurra para cima do sofá, já em casa. Tenta dizer alguma coisa quando ele enfia as mãos em suas coxas por dentro da saia e puxa sua calcinha até os joelhos, mas sabe que não há mais o que fazer. Em menos de dois minutos Carlos já está novamente em pé, colocando as calças e dizendo Não sai daí que eu vou sair pra comprar fumo e quando voltar tu vai fumar comigo., mas demora demais para voltar. Quando ela acorda, perto do meio-dia, Carlos está deitado nu no tapete ao lado do sofá. Ainda com sêmen escorrendo pelo interior de suas coxas, ela acende uma das pontas que estão sobre a mesinha.
4. Mas foi ele quem me gerou antes do tempo de nascer. E ele é meu fruto no tempo devido. E dele vem meu poder.
Vou até o hospital e logo que entro no quarto ela, sem nem me olhar, diz Espia aquela mancha no teto, Carolina, é um sinal de que o Messias vai chegar. E ele vai nascer de mim. Antes mesmo de conferir, já sei que não existe mancha alguma no teto, e me sentindo bastante ridícula pergunto Como tu tá, vó, tão te tratando bem? Ela tenta de novo agarrar meu braço como da outra vez, mas eu me esquivo de suas mãos enquanto ela sorri e pergunta se eu ainda gosto de ler. Respondo que sim e ela me olha de um jeito que lembra minha mãe e diz Então lê, Carolina, está tudo nos gnósticos. A mesma enfermeira da minha outra visita chega com um prato de sopa. Os gnósticos, vó? eu quero saber, enquanto ela balança a cabeça recusando a janta. Como a senhora sabe quem são os gnósticos? eu insisto, e ela sorri e diz Foi tua mãe, Carolina. Já falei que ela está grávida de novo? Que alegria, ela vai te dar um irmãozinho!, e aí eu fecho os olhos, respiro fundo e não escuto mais nada até chegar no estacionamento e fechar a mão direita sobre as chaves no meu bolso.
5. Sou o cajado de poder de sua juventude, e ele é a vara de minha velhice.
Está saindo da faculdade quando toca o celular. É Carlos, convidando para um jantar na casa de um dos seus amigos do novo emprego. Ela acha engraçado quando é recebida por um homem de terno e máscara de diabo, que a conduz até uma sala de jantar. Continua achando graça quando encontra o namorado e outras três pessoas ajoelhados em círculo, e segura obediente uma risada quando o homem de chinelos usando uma máscara de porco que lhe cobre apenas metade do rosto manda que ela também se ajoelhe. Quando o homem de camiseta regata e máscara anti-gás aparece na porta com uma escopeta na mão, começa a não entender mais que tipo de brincadeira é aquela, afinal. Olha para Carlos, que sem corresponder o olhar aperta sua mão e sussurra Assalto, assalto. Ela não consegue mais se mexer e fixa os olhos ansiosos nas havaianas brancas do homem com a máscara de porco, que monta guarda na sala de jantar. Ficam os quatro quietos por um bom tempo, ajoelhados e olhando para o chão, enquanto o homem com a máscara de porco fuma e apaga seus cigarros no tapete. Assim que pisoteia a sétima guimba com a borracha de seus chinelos, grita Eaí? na direção da sala. Surge o homem da máscara de diabo e diz Feito, vambora. O homem com a máscara anti-gás dá uma risada catarrenta e fala Olha só que bonitinho, todo mundo ajoelhado. Parece uma igreja, diz o diabo. Acendendo outro cigarro, o porco anuncia que A missa tá acabando, ninguém se mexe nos próximos vinte minutos ou vai pro inferno. De longe, o diabo grita Fiquem com deus, jesus breve voltará, e bate a porta.
6. E o que ele desejar acontece comigo.
No hospital, antes de chegar no quarto, encontro a mesma enfermeira de sempre. Sinto muito, ela diz, como eu achei que só faziam em filmes, e fala que minha vó tá morta, que estão avisando a família, que eu preciso me acalmar. Pergunto se não nasceu algum bebê, se alguém percebeu que ela estava grávida, e ela olha para os lados e logo percebo que estou rodeada de pessoas em jalecos brancos me ouvindo gritar Vocês mataram minha vó! Seus filhos da puta! O que vocês fizeram com o nenê? Quando a enfermeira encosta as mãos em meus ombros eu cuspo na cara dela e saio de lá e pego meu carro e dirijo sem olhar para a rua e atropelo um cachorro e não tiro o pé do acelarador e faço uma curva fechada e chego na casa do Carlos e ele abre a porta e já vai perguntando O que foi, Alice, tu tá branca, e eu empurro ele pela sala até a gente cair no sofá e digo que minha vó era tão bonita quando era jovem e sei que ele nunca viu nenhuma foto da minha vó quando ela era nova e nem sabe que meu vô brigou com toda a família só pra poder casar com uma gói e digo que no hospital ela ficava me chamando de Carolina que era o nome da minha mãe e o Carlos fica me encarando com os olhos vermelhos e eu pergunto se ele já ouviu falar dos gnósticos e ele ri e diz O quê, aqueles caras que dão cursos esotéricos grátis? e aí me dá um beijo mole e enfia a mão suada no meio das minhas pernas e quer saber se minha menstruação ainda tá atrasada e pergunta se eu tô a fim de fumar maconha e eu começo a me sentir mudando de tamanho e fico tonta e saio correndo e ele vem atrás de mim gritando Alice? Alice? e eu me tranco no banheiro e começo a vomitar.
[inPELLIZZARI, Daniel et al. "Geração 90: Os transgressores". Ed. Boitempo. São Paulo, 2003]
Por Daniel Pellizzari em outubro 11, 2004 5:06 AM
