outubro 11, 2004

Arnaldo e os moinhos

Estavam em lugar nenhum, estacionados no acostamento da estrada quase vazia. Vamos sair do carro, o outro pediu, e Arnaldo obedeceu e sentou no capô azul. Não era mais que dez e meia da manhã. Nem uma só nuvem no céu, só um azul que se espalhava por tudo e fazia uma composição com o verde pontilhado de áreas amarelas e vacas ruminando. Soprava um vento leve que não era mais que um bafo, e eles podiam sentir o calor rachando o asfalto e subindo pelas pernas. No horizonte, depois das vacas, um moinho.

Primeiro, foi o barulho. Um ruído monótono que se repetia, atrapalhando o sono. Abriu os olhos e vieram os vultos. Alguns negros, outros cinzentos, a maioria apenas sombras. O barulho continuava. Com os dedos de unhas cortadas rente acariciou a pele do rosto, áspera e suada. Sentou-se na cama enorme, esqueceu do barulho e das sombras e lembrou de si.

Arnaldo Morales. Sempre gostou do som de seu nome, da evocação quixotesca de seu sobrenome espanhol. Um homem franzino lutando contra os gigantes. Faltava-lhe um Sancho Pança, mas nenhum de seus colegas do escritório lhe parecia adequado. Na verdade, nenhum de seus conhecidos aceitaria tal cargo. Arnaldo, Don Morales de la Mancha, o cavaleiro solitário de triste figura. Lembrou que nunca lera Dom Quixote.

Aos poucos, foi deixando a cama que um dia tinha sido de seus pais. Primeiro um pé, depois o outro, com uma lentidão científica, como se estivesse experimentando a temperatura do chão. O piso do velho apartamento onde morava com sua tia Eurides lhe enojava desde criança, por razões que não entendia. Seu quarto era o único cômodo acarpetado: no resto da casa ele brincava de amarelinha. Pululava pelo mosaico de tapetes como se ainda fosse um garotinho magricela e míope, embasbacado com o tamanho dos móveis, dos quadros e de tudo.

Caminhou pelo que chamava de reta dos mortos, um corredor adornado de ambos os lados por fotos de diversos parentes seus, todos já falecidos. Acendeu a luz e deu bom-dia para seus avós, seu tio Guillermo, alguns eternos desconhecidos e finalmente para seus pais. Ele também estava na foto, ainda um bebê, e não conseguia deixar de sentir-se morto de vez em quando. Chegou à cozinha.

— Bom dia, tia Eurides - balbuciou sem muita vontade, os olhos ainda se desgrudando um do outro.

Bom dia, respondeu Eurides, muito magra, encolhida, meio cega, imortal. Acordou tão cedo hoje, completou, com sua mania de fazer perguntas disfarçadas de comentários.

— Foi o liquidificador, tia.

Ah, sorriu a tia com seus pequeninos dentes falsos.

— Você sabe que gosto de tomar minhas vitaminas quando acordo, meu filho.

Bocejando, Arnaldo fez que sim com a cabeça e procurou pelo jornal. Sentou-se à mesa e mordiscou um pão, enquanto a tia lhe enchia um copo com vitamina de mamão e leite.

— Você sabe que eu odeio mamão, tia.

Mas faz bem para os ossos, replicou ela num tom de ordem.

— Bebe.

No escritório, entre números, papéis e carimbos, Arnaldo parou por um minuto e olhou para a mesa do lado. Entre a fumaça do cachimbo escondia-se Getúlio com sua careca, sua barriga fugindo pelos cantos da camisa e a eterna marca de suor embaixo das axilas. Ei, Getúlio, chamou. O colega se sacudiu na cadeira e olhou para Arnaldo por detrás dos pequenos óculos de aros retangulares. O que é, quis saber.

— Você já leu Dom Quixote?

Getúlio largou a caneta, tirou um lenço do bolso da camisa e passou pela testa calva pontilhada de suor. Deu mais uma pitada no cachimbo (o cheiro doce que Arnaldo tanto gostava) e perguntou:

— Como assim?

— Dom Quixote. O livro, sabe? Aquele do cavaleiro.

O livro eu sei qual é, sorriu Getúlio. O que ele queria saber era o porquê da pergunta. Arnaldo trincou os dentes, olhou para o teto e ruminou um sorriso encabulado. Por fim respondeu:

— Por nada. Por nada.

Voltaram ao trabalho. O escritório estava se afogando em calor e umidade. Os grandes ventiladores de metal não funcionavam, e sua presença era incômoda. Pareciam guardiões impiedosos, representando o chefe que Arnaldo não conhecia. Esqueceu por um tempo dos papéis e ficou olhando para a ponta dos sapatos. De repente, quando uma mosca pousou em sua mão esquerda, olhou novamente para Getúlio e chamou:

— Ei, Getúlio.

O colega tirou os óculos. Diga, Arnaldo.

— Você acha que existe mesmo alguma coisa infinita?

Arnaldo não escutou o riso abafado vindo da outra mesa, onde trabalhavam Marialva e seu excesso de maquiagem. Como sempre fazia, Getúlio pediu a Arnaldo para repetir o pergunta.

— Você acha que existe mesmo alguma coisa que seja infinita?

Antes que Getúlio pudesse começar a falar, Marialva se intrometeu, sem tirar os olhos das unhas:

— Existe sim, Arnaldo. É a paciência que o Getúlio tem para as perguntas que você faz.

Todos desataram a rir. Menos Arnaldo, que riu depois, já em casa, um pouco antes de cortar os pulsos.

Arnaldus era conhecido e admirado em todo o Reino por sua bravura como soldado e dono de grandes espáduas cuja lança perfurou o crânio mole do senhor Matias. Mesmo assim, havia muita fofoca sobre seu animal de estimação, um porco do mato, e não havia quem não estranhasse sua decisão de tomar um moinho abandonado como residência.

Quando estava longe não incomodava tanto, mas o zumbido foi chegando cada vez mais perto do ouvido e não adiantava virar a cabeça para o outro lado. Era uma esquadrilha. Abriu os olhos devagar, os cílios se desgrudando aos poucos, o zumbido mais alto a cada respiração, os olhos de novo fechados. Tentou jogar longe o lençol que grudava em suas pernas, mas seu corpo estava desfeito em gelatina. Desistiu. Procurou com os ouvidos o barulho do ventilador de teto. Ajudava a esquecer dos mosquitos e tinha um efeito mágico sobre o calor, apesar de não produzir nada além de ruídos. Fome. Legiões de mosquitos zumbindo, um ventilador barulhando ao invés de ventar, o ronco sustenido de um estômago e então um grito:

— Pai!

Desta vez Arnaldo abriu os olhos com força, ignorando a preguiça dos cílios e a tontura do corpo. Não conhecia a voz, que continuava:

— Tem alguém aí? Alguém?

Eu, respondeu, sem saber mais o que dizer.

— Graças a Deus - a voz do outro estrebuchando — Graças a Deus.

Ainda confuso, passou as costas da mão para limpar o suor gelado da testa, estalou a língua que parecia uma lixa e piscou os olhos para tentar enxergar melhor seu vizinho. Do outro leito, com palavras degustadas, a voz continuou:

— Não me leve a mal, não. É que eu tenho um certo medo de ficar sozinho no escuro. Sabe como é, essas coisas de fobia.

Arnaldo disse sei sim em silêncio e o outro continuou:

— Ainda mais em hospital.

Agora já podia enxergar melhor e ficou observando com uma surpresa idiota a dança das mãos do vizinho, que não parava de gesticular enquanto falava, mesmo deitado. Enquanto movia as mãos sem parar, continuava a explicar seu medo: quando tinha uns oito anos fez uma cirurgia para corrigir um testículo recolhido. A operação não era das mais complicadas, mas o pós-operatório era um inferno.

— Além da vergonha, estava um inválido: não podia andar, porque cada uma de minhas bolas estava presa às minhas coxas por um fiozinho bem fino.

Juro que é verdade, replicou, sério, quando Arnaldo deu uma risada. E explicou melhor: não estava com o saco grudado nas pernas, podia abri-las até um limite. Mas, se tentasse andar e escorregasse, seria o fim. Enquanto convalescia, no hospital, era acompanhado de seu pai, que dormia em seu quarto todas as noites.

— Naquela época eu podia ficar em quarto individual. Agora também posso, mas não quero.

Em uma das noites, acordou com um ataque de asma, e chamou pelo pai. Nada. Nenhuma resposta. Era inverno, e lá fora uma ventania abria caminho para uma possível tempestade. O silvo do vento parecia eco do som que arrancava dos pulmões. Chamou de novo pelo pai. Silêncio. Escuridão, vendaval, falta de ar e impossibilidade de se mover se juntaram então a uma vontade crescente de ir ao banheiro.

— Mas, porra, eu não podia caminhar com o saco daquele jeito. Aí, azar. Me caguei de medo.

Literalmente.

Terminou sua história e se rendeu ao clichê de um suspiro. Arnaldo abortou a gargalhada que não teria forças para dar e perguntou o nome do vizinho de leito.

— Sancho. E ainda tem mais. Sabe como vim parar aqui?

Arnaldo ficou quieto durante alguns segundos, olhou bem para o outro e repetiu:

— Sancho?

— É. Sancho. Sabe, Dom Quixote, o livro e tal. Meu pai adorava.

Prendendo a respiração, Arnaldo apertou as palmas das mãos com as pontas dos dedos e jogou os olhos para o teto. Sancho pareceu não se importar e continuou falando.

— Você pode não acreditar, mas estou aqui porque tentei me matar.

Quando Arnaldo deu uma risada, ele também sorriu e continuou:

— O pior é que é verdade. Cortei os pulsos. E você, porque está aqui no hospital?

Arnaldo não respondeu, e Sancho também ficou quieto. O zumbido dos mosquitos voltou a ficar perceptível e um enfermeiro entrou no quarto trazendo os almoços. Quando terminou de comer, Arnaldo olhou para o vizinho, que ainda mastigava o bife de fígado, e quis saber:

— Sancho, você já leu Dom Quixote?

O outro passou as costas das mãos pela boca e respondeu:

— Não, mas vi no Sítio do Pica-Pau Amarelo quando era criança.

Já era um começo.

[inPELLIZZARI, Daniel. "Ovelhas que voam se perdem no céu". Livros do Mal. Porto Alegre, 2001]

Por Daniel Pellizzari em outubro 11, 2004 4:50 AM

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)