outubro 11, 2004
Modo de dizer
Não estamos começando a... a... significar alguma coisa? Samuel Beckett, Fim de partida
Era uma vez uma mulher recém-chegada à menopausa, que morava em uma casa com sótão. Seu nome era Maribel, baixa e míope. Tinha orgulho de não ter filhos, mas nos dias de sol sentia falta de um marido, mesmo colecionando sete gatos. Em uma quarta-feira de cinzas, devidamente ensolarada, resolveu distrair tal falta com uma faxina completa em todos os cômodos da casa. Chegando ao sótão, sempre acompanhada pelos gatos, começou a remexer em todas as caixas e baús e cabides e pilhas de objetos sortidos, proporcionando um momento realmente intenso para a colônia de ácaros sonolentos que tomara aquele espaço como deganha. Abrindo o maior dos baús, rejuvenesceu algumas décadas ao encontrar um par de botas que comprara aos dezoito anos. Eram botas de couro avermelhado, muito compridas, com enormes plataformas. As usara pela última vez no dia em que terminou tudo com seu então noivo Francisco, um homem de sorriso magro, cabelo líqüido e fidelidade nula. Colocou as botas embaixo do sovaco e continuou a remexer no baú, até enxergar seu casaco de veludo creme. Ao estender a mão para pegá-lo, se assustou com uma aranha que surgiu embriagada do fundo do baú e a encarou com as duas patas da frente erguidas. Implacável, nossa protagonista resgatou o par de botas de sob o celibatário sovaco e bateu os enormes saltos plataforma um contra o outro, mantendo a aranha convenientemente no ponto de encontro das duas. Assim, Maria do Socorro - este era seu nome de batismo - encerrou a existência empoeirada do aracnídeo. Ao mesmo tempo, seus sete gatos desabaram ao seu redor, decididamente defuntos.
A mais fofoqueira de suas vizinhas pereceu na semana seguinte, e a partir de então Maribel tornou-se dependente do poder de exterminar tudo que fosse vivo ao seu redor com um simples bater de botas. Assim se foram dois missionários Mórmons, um cobrador, três homens que a haviam rejeitado, um juiz de futebol (ela gostava do esporte bretão) e, por engano, um escoteiro roliço que batera à sua porta tentando vender uma rifa e biscoitos amanteigados. O uniformizado infante desabou redondo na soleira de sua porta, como se fosse uma cesta cheia de legumes. Permaneceu ali até a chegada de seus colegas de patrulha, de alguns lobinhos e do chefe escoteiro, que balançava a careca suada resmungando Bem que a família avisou que ele tinha saúde frágil, mas juro que pensei que era só asma. Quando o carro do IML desapareceu na curva da rua, Maribel começou a se refestelar em melancolia, progressivamente arrependida por seu cabedal de aniquilamentos. Em uma manhã de domingo, resolveu pôr fim à sua vida. Calçou as botas com cuidado e, um esgar de felicidade no rosto, bateu uma contra a outra. Tudo ao seu redor desapareceu no intervalo entre dois pensamentos, mas ela continou viva, perdida para sempre em um limbo sem cima ou baixo, frente ou fundo, luz ou sombra.
[inPELLIZZARI, Daniel. "O livro das cousas que acontecem". Livros do Mal. Porto Alegre, 2002]
Por Daniel Pellizzari em outubro 11, 2004 4:45 AM
