setembro 10, 2004

& éramos giovenn

Para registrar o kerb de três anos de falecimento do Cardosonline, comemorado entre hoje e domingo, republico aqui minha última coluna no afamado periódico. Três centenas de edições, hm? Foi trimmmassa.

(Em termos anal-retentivos é a antepenúltima, mas considerando-se que a penúltima eram apenas três links e a última era um email surtado que mandei para a mailing list interna do zine e o Caroção resolveu publicar, esta foi mesmo a última. Segue:)

____________________________________________________________
_______________________________ EU NÃO SOU JAIME RODRIGUES _
_ notas para uma vida sustenida ___________________________
__________________________________________/daniel pellizzari
Sabemos demais sobre nós mesmos e as mulheres para partilhar os sentimentos do jovem Werther. - São Paulo Francis


- * -

Chega a ser mais do que curioso ou instrutivo saber que as últimas palavras de Hegel foram "apenas um homem me entendeu, e na verdade ele também não me entendeu". Mas este é meu assunto da semana que vem, então eu e vocês vamos ter que esperar sentados. Enquanto isso, vou distraindo a platéia com outras coisas. Tudo bom com vocês, lindezas? Comigo tudo ótimo. Então sigamos.


- * -

Também não acredito em nada,
mas passar a vida discutindo
a bateria do carro, ou que
isqueiro se deve usar, ou
que empreguinho de bosta se
deve ter, prefiro uma boa morte.
-São Paulo Francis

- * -


CHI FOFOCAS CUJOS
RESTINHOS SAEM DO
FUNDO DA CACHOLA

ou

COISAS QUE EU SEI MAS NÃO LEMBRO SE INVENTEI OU LI -


a) Anthony Burgess (autor de "Laranja Mecânica", só para ficar no livro mais conhecido, cuja notoriedade lhe incomodava e cuja adaptação para o cinema lhe deixou muito insatisfeito, por motivos até justos) e Glauber Rocha (aquele cineasta que apesar de ter feito alguns grandes filmes de fumeta só experimentou maconha pra socar umas bronhas) chegaram a escrever alguns roteiros juntos, mas nenhum produtor se interessou e a coisa ficou por isso mesmo. Não sei que fim levaram esses roteiros, e na real não sei se algum foi terminado. Mas que devem ser no mínimo curiosos, ah, isso devem. Principalmente se fossem dirigidos por, digamos, o Mojica.

b) No meio de um de seus incontáveis birinaites, o caolho-mor James Joyce resmungou uma teoria para Samuel Beckett: Adolf Hitler tinha deflagrado a Segunda Guerra Mundial apenas para desviar a atenção do público e impedir o sucesso total de sua "obra em andamento", que conhecemos hoje como "Finnegans Wake" e é um livrinho coisa fina de se abrir em qualquer página e ficar lendo em voz alta até ter um orgasmo. Depois largar, é claro, porque tudo nesse mundo tem que ter um limite. Não vou dizer o porquê, mas acreditem em mim. Também é legal ficar lendo as três últimas frases em conjunção com as primeiras, mas isso já é questão de gosto pessoal e não tem nada a ver com memória, então termino este item lembrando também que a filha louca do Joyce era apaixonada pelo Beckett e, não sendo correspondida, começou a odiar judeus e dizer que eles apodreciam o mundo y tal y cousa. Se vê que os Joyce eram realmente uma família afeita à paranóia. Gente boa, mas não exatamente por causa disso.

c) William Blake insistia em usar um chapéu vermelho que todos, incluindo sua fiel esposa, achavam ridículos. Ele achava legal, e isso é o que importava para ele e os outros que se danassem. Isso parece meio banal hoje em dia, mas não sei se também o era no século XVIII. Blake também gostava de garotinhas. Estou falando de garotinhas mesmo: onze, doze, treze anos. Isso parece meio banal hoje em dia, se a gente parar pra pensar, mas com certeza não é uma coisa que alguém assume assim sem mais nem menos. De repente era normal no século XVIII, pensando bem. As coisas são tão engraçadas, não são? Eu acho. E gosto muito do Blake, apesar de tudo.

d) Já que falei do Hitler ali em cima, vou poupar vocês de lembrar daquela história de que ele só tinha um testículo e por isso ficou um tantinho recalcado. Me parece bobagem. Tem também o papo de que ele não era muito chegado na cópula, que era vegetariano e que odiava cigarros. Depois que gentilmente suicidou a Eva Braun (ato deveras simbólico se você observar que ela tinha um nome judeu e um sobrenome alemão, dois povos que o austríaco sacaneou direitinho) e meteu uma bala nos cornos, o primeiro ato de muita gente naquele bunker fedido e escuro foi acender um cigarrinho. Mas longe do Goebbels, que na real eu não sei se a esta altura também já tinha suicidado a mulher e os filhos, mas que quase com certeza posso fofocar pra vocês que era bem chegado numa furunfada. Assim como o Göring e o Himmler, mas esse aqui me parecia mais pro lado "teu corpo é meu espelho e em ti navego", e com isso eu sinceramente não estou tentando insinuar nada. Galã mesmo era o Rommel, mas não lembro de historinha alguma sobre ele. Que envolva gatas quentes, isto é. Heh, parece piada sobre os Afrika Korps.

e) O poeta, cachaceiro, misticóide, filosofista e neurótico Fernando Pessoa, além de ser chegado num mapa astral, chegou a trocar algumas carta com o bon vivant, fudedeiro, enxadrista, macumbeiro, alpinista e (vá lá) poeta Aleister Crowley. Eles marcaram um encontro, que o Pessoa adiou várias vezes porque urano estava em conjunção com plutão na casa XII ou algo assim, mas acabou rolando. Quer dizer, rolou a intenção, mas o portuga ficou esperando com cara de ó porque o inglês desapareceu misteriosamente, deixando a polícia intrigada com seu paradeiro. Depois o carequinha reapareceu, mas nem ele nem o do bigodinho fizeram qualquer comentário sobre o assunto. RPGistas. Se não me engano, o dia em que isso aconteceu estava deveras brumoso, o que seria tão clichê que tem tudo para ser factual. Coisa de quem poeteia.

E era isso por hoje. Me limito a cinco itens ou acabo escrevendo quinhentas páginas de historinhas envolvendo gente famosa, interessante e morta, sem ter certeza alguma se elas realmente são verdade ou se eu li alguma mentira ou se eu inventei quando não tinha mais o que fazer. A propósito, se alguém puder me enviar comprovação de fonte fidedigna sobre alguma das coisas que escrevi ali em riba, agradeço. O email está ali no fim do zine. Prometo prêmios incríveis às boas almas pesquisadoras que me prestarem este favor. Minha gratidão, ainda que limitada, é um deles.


- * -

Botar o bacalhau para fora
é a moda, não ocorrendo,
aparentemente, à maioria das
pessoas, que bacalhau fede.
- São Paulo Francis

- * -


E, POR FIM, A
SUA TRADUÇÃO DE
DANIIL KHARMS
PARA A SEMANA É:

#INCIDENTES

Certo dia Orlov se empanturrou de purê de ervilhas e morreu. E Krilov, ao saber diso, também morreu. E Spiridonov morreu por conta própria. E a mulher de Spiridonov caiu do aparador e também morreu. E os filhos de Spiridonov se afogaram no açude. E a avó de Spiridonov tomou um trago e caiu na estrada. E Mikhailovich parou de pentear o cabelo e pegou sarna. E Kruglov desenhou uma mulher com um chicote nas mãos e perdeu a cabeça. E Perekhrestov recebeu quatrocentos rublos por telégrafo e ficou tão metido a besta que acabou demitido.

São todos boas pessoas - mas não conseguem manter os pés plantados no chão.

- * -

O artista nos revela o que
não sabemos sobre nós próprios
ou sobre o mundo. Quem apenas
massageia nossos preconceitos
e pressuposições não é artista.
- São Paulo Francis

\\trilha
"king of the delta blues singers",
robert johnson
---Daniel Pellizzari (Fu Mochu) Por Daniel Pellizzari em setembro 10, 2004 1:47 PM

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)