agosto 4, 2004
Julia Pastrana

(1834-1860)
[Conhecida enquanto viveu por diversas alcunhas, sendo a mais famosa "A Mulher-Macaco", Julia foi uma pequenina índia mexicana cujo corpo era inteiramente coberto de pêlos grossos e sedosos. Seu rosto possuía proporções simiescas, suas gengivas eram hipertrofiadas e suas mandíbulas sustentavam fileiras duplas de dentes pontiagudos. Inteligente e curiosa, falava várias línguas e era fascinada por livros. Foi exibida por toda a Europa por seu marido-explorador Theodore Lent, em espetáculos nos quais cantava com sua voz mezzo-soprano e dançava usando as roupas típicas que ela mesmo costurava. Morreu dias após o difícil parto de um bebê natimorto que carregava o mesmo problema genético. Após sua morte, seu corpo e o do bebê foram mumificados por Lent, que continuou os exibindo até enlouquecer e morrer em um sanatório. Depois disso, as múmias de Julia Pastrana e de seu filho sumiram e reapareceram várias vezes, em diversos lugares diferentes. Sua localização atual é incerta.]
Quente, o dia em que morri. Pela quantidade de pessoas ao redor de meu cadáver, ainda sou amada. Foi o que eu disse, antes de morrer: Fui feliz e amada. O Sr. Lent, meu gentil marido, conversa no canto da sala com um homem de sotaque duro. Meu filho nasceu morto. Pude vê-lo antes que o levassem embora; percebi que, como eu, era uma pessoa interessante. Eu poderia fazer roupas para ele. Talvez o ensinaria a dançar. Viajaríamos juntos pelo mundo e seríamos vistos por todo tipo de gentes, e provavelmente conheceríamos outras pessoas interessantes. Eu era A Mulher Mais Interessante do Mundo.
Na beira da cama em que estou morta, avisto um homem muito branco e gordo, que carrega um pequeno cão sob o braço direito. Ele está nu. Ao contrário de mim, não tem pêlo algum, e mesmo assim sua sem parar. Seu corpo todo brilha, parecendo coberto de gordura. Também me parece interessante, com sua enorme pança composta de dobras de pele sobrepostas. Presto atenção no trajeto do suor em seus seios pendentes, com mamilos roxos e redondos. Apenas eu olho para o homem, que passa um longo tempo suando em frente à cama. Percebo agora que lhe falta um dos olhos.
O homem larga seu cão no piso do quarto. Surgem crianças de todos os lados; nenhuma delas é interessante. Meu filho, o que nasceu morto, era peludo como eu. As crianças brincam com o cãozinho do homem gordo, que continua em pé sobre uma poça de suor grosso. Quando o cachorro chega perto demais da cama adornada por meu cadáver, as crianças finalmente me enxergam. Todas, à exceção de uma, gritam e saem correndo. Pobrezinhas. Gente morta deve assustar. O garotinho que ficou no quarto se aproxima devagar, até ficar ao lado de minha cabeça. Quase abro os olhos e desmorro, mas ao contrário do que esperava não ganho beijo algum. Ele puxa com força uma das minhas costeletas e sai correndo do quarto com um tufo dos meus pêlos nas mãos.
O homem gordo agora sorri e me estende os braços. Caminho ao seu lado em direção à porta, enquanto olho para trás e vejo que o Sr. Lent e o homem do sotaque estranho apontam para meu corpo de uma maneira que não consigo entender. Ainda há muitas pessoas ao redor da cama. Sempre gostei de ser vista e amada, mas existe alguma coisa no olhar dessas pessoas que me confunde. Não era o mesmo olhar das crianças para o cãozinho. Tão bonito. Meu filho era bonito. Como eu. Ao passar pela porta encontro Rab, o anão escocês, recolhendo dinheiro de quem entra. Pergunto ao homem gordo para onde estamos indo. Ele pisca o olho que resta e não diz nada. Fico feliz em deixar meu corpo para trás. Agora será enterrado e desaparecerá. Nunca mais será olhado daquele jeito. Talvez eu não tenha sido amada pelo que fui.
Tropeço uma canção de amor em espanhol, pego uma das mãos rechonchudas e úmidas do homem gordo, sorrio e pergunto se posso renascer como um cão. É o que desejo. Renascer como um cão: ou isso, ou o nada.
[2002: primeiro capítulo de um livro que parou por aí mesmo]
Por Daniel Pellizzari em agosto 4, 2004 7:29 PM
