junho 15, 2004

Oi, meu nome é John Constantine

Na urgência de criar imagens
Exposição póstuma, na Usina do Gasômetro, reúne 30 pinturas da gaúcha Silvia Motosi

Uma saturação de cores e figuras, uma urgência de imagens, uma pulsão de vermelhos, amarelos e azuis, personagens estranhos, místicos e profanos, ocupam a partir das 19h de hoje a Galeria Iberê Camargo, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. São 30 pinturas de Silvia Motosi, organizadas em dípticos e polípticos (imagens que se compõem pela aproximação de duas ou mais partes).

Trata-se de uma exposição póstuma. A porto-alegrense Silvia morreu em fevereiro de 2002, aos 30 anos. Deixou um legado de quase 400 desenhos e cerca de 160 pinturas.

- Ela era intensa. Trabalhava rápido. Era compulsiva por pintura - lembra Amélia Brandelli.

Amélia também é pintora e dividia ateliê com Silvia. Partilha a curadoria da exposição que será inaugurada hoje com outra pintora gaúcha, Marilice Corona. Amélia e Marilice procuraram selecionar para a mostra trabalhos que fossem representativos de diferentes fases do percurso da amiga. Estão lá a série das Verônicas, com declarada matriz na obra do mestre austríaco Gustav Klimt, as figuras que embaralham personagens sagrados da umbanda, do catolicismo e de remotas religiões celtas, os retratos de amigos, aos quais a artista adicionava coroas de espinhos, piercings, flores e guampas. Mas há, antes de tudo, uma unidade de cores, temas, formas e formatos - que praticamente anulam a divisão por fases. Tudo em ritmo frenético. Amélia diz que propositadamente ela e Marilice decidiram superpovoar a galeria de imagens:

- Pensamos em usar o mesmo princípio que Silvia usava: saturar o espaço.

Serviço
O QUE: exposição de pinturas de Silvia Motosi
QUANDO: abertura, hoje, às 19h. Visitas de amanhã a 4 de julho, de terças a domingos, das 15h às 19h
ONDE: na Galeria Iberê Camargo, na Usina do Gasômetro (João Goulart, 551)
QUANTO: entrada franca

"Vou encher aquele lugar com tantas coisas que uma igreja barroca de Minas vai parecer templo pentecostal", ela me disse certa vez. More is more. "O importante é vencer em alegorias e adereços".

"Agora estou fazendo uns retratos. Tu não vai gostar, são meio acadêmicos". Falou sem ironia alguma. Morri de rir. O meu não deu tempo de fazer.

Que saudade desgraçada. A Igreja do Santo Ofídio Gnóstico (Reformada) me faz falta quase todo dia. Hoje é certo que pago um mico de chorão.

Salve Regina, Mater misericordiae. Agora, finalmente, temos a mesma idade. Logo você vai ficar mais nova que eu; inconcebível, como todo o resto.

Por Daniel Pellizzari em junho 15, 2004 12:57 PM

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)