março 23, 2004

Patience is the great thing


A melhor coisa da literatura é que trata-se de um universo onde não existe o "ir longe demais". Por mais que você force os limites, nunca vai sair da beirada. A existência não tem solidez nem centro. Não se deixa agarrar. O único modo de conhecê-la é pelo que deixa refletir. Escrever e ler, então, é como brincar de quebra-cabeça com cacos de espelhos.

(Ou, como disse Tio Jaime de forma menos pedestre ao falar da meandartale n'O Livro Que Nunca Acaba1, assim são as cousas, mergulhadas até o nariz na ignorance that implies impression that knits knowledge that finds the nameform that whets the wits that convey contacts that sweeten sensation that drives desire that adheres to attachment that dogs death that bitches birth that entails the ensuance of existentiality2. É por aí, hein. É por aí.)

1 Finnegans Wake, a melhor obra para ler-se aos caquinhos do parto à partida caso você tenha sido agraciado com o tipo ideal de insônia.

2 Não me agradou a versão do venerável Schüler para essa passagem. Ficou (...) ignorância quimplica aimpressão que tece o conhecimento que forma a onomatoforma quinflama a mente que veicula vínculos que adoça sensações, que destina o desejo que adere a adesões que cachorreia a caveira que cadeleia a cuna que enraba o seguro da existencialidade. Não gostei; perdeu um tanto da alma. E o que aquela vírgula faz ali? Do alto ventoso de minha estultícia eu arriscaria (...) ignorância que implica impressão que cose conhecimento que encontra a nomeforma que espevita o espírito que consuma contatos que suaviza sentido que doma desejo que apanha apego que dana despedida que blasfema bereshith3 que engendra a efetivação da existencialidade), mas ah, quem se importa?

3 Se você não gosta de hebraico ou sente pruridos vertebrais ao pensar na Bíblia ou no Tanach, pode trocar por que blasfema babau que dana despertar. Não fico magoado nem nada. Mesmo. Sou um gastrópode, não não, um nematelminto magnânimo (maggots we are etc).

Por Daniel Pellizzari em março 23, 2004 7:04 PM

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)