março 12, 2004

Cemitério de bezoares

[Primeiro capítulo de Carcaça, projeto de novela em que trabalhei de dezembro de 2002 a julho de 2003. Não será concluída. De suas quarenta e tantas páginas arrancarei algumas boas frases e bem, adeus.]

Por outro lado, gozávamos da mais perfeita consciência quando encontramos: de bruços, entre a entrada do quarto e a exata metade do corredor. A primeira coisa que pudemos enxergar foram os pés. O esquerdo, cuja unha do dedão vivia encravada, estava descalço e com o calcanhar esverdeado de grama úmida. A alguns bons centímetros de distância repousava o direito, também desnudo mas sem traço algum de sujeira. Quieto, um pouco torto para a esquerda e adornado com um guizo – insistência que nunca nos esforçamos para compreender – na altura do tornozelo. Este, bonito mas grosso além da conta, ao contrário das coxas, finas e levemente musculosas, terminando nas carnes das nádegas, sempre muito brancas, como de resto todo seu corpo. As covinhas, esse mistério da fé, continuavam muito aparentes, ladeando as iniciais – assim mesmo: LOSVCI – tatuadas pouco acima do cóccix, ao redor dos ângulos quase alienígenas de uma coroa de louros estilizada. Escorregamos pela vertigem da hiperlordose, engatinhamos pela lentidão das omoplatas, intuímos com auxílio da memória uma vaga geografia das clavículas e detivemo-nos na bochecha esmagada contra o assoalho de madeira, os lábios esbranquiçados entreabertos em uma careta de elegância inverossímil. O nariz. Olhos muito abertos, fixos nos pés da penteadeira, seu azul já um pouco embaçado, quase cinzento, o branco da esclerótica já opaco como uma bala de goma. Ainda não tínhamos visto o novo corte de cabelo, ainda mais curto, agora quase andrógino. Paralelos ao corpo, os braços estendiam-se simétricos para a frente, dobrados, na altura do pescoço as palmas das mãos viradas para fora, dedos como serpentes. Olhamos mais uma vez para o traseiro, as covinhas, a tatuagem, e, com um sorriso reflexo, murmuramos como da primeira vez: Lasci ogne speranza voi ch’intrate. Engraçadinha.

(Mors domada, que bobagem. Se fosse um bezoar você estaria viva, mocinha. Se fosse um bezoar, isso arruinaria toda essa cena de morrer envenenada, mastigando atropina ou beladona ou cartucheira ou raticida ou a própria língua. O fim é importante em todas as coisas? O que importa na vida é uma boa morte? Falácia. Valioso é o enquanto, o resto não passa de frontispício e colofão, se arranca e pronto. De mais a mais, tudo não passa de um punhado de coincidências.)

Que nos perdoe Deus em seu trono imberbe cercado por uma divisão de anjos carecas, mas mesmo cadáver ela ainda nos parecia uma coisinha carente precisando levar no rabo.

Por Daniel Pellizzari em março 12, 2004 6:27 PM

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)