março 11, 2004

Se digo prolepse, respondem saúde!

Sim, este blog anda meio abandonado. Não tive a graça de ser herdeiro, portanto estou me concentrando em gerar receita para engrossar o orçamento doméstico. Uso o tempo que me resta para ler, dormir e ser um bom marido, seguindo o exemplo imortal de Gomez Addams.

Venho também escrevendo Dedo negro com unha, meu novo livro, uma narrativa longa oficialmente subintitulada Uma farsa épica contendo as mais abstrusas, discutíveis, taumatúrgicas e desopilantes desventuras ocorridas desde o início dos tempos até os atribulados dias pentadiluvianos. O volume será publicado alguns - dois? três? - meses depois que eu terminar de escrevê-lo e que o glorioso Victor-Hvgo Borges acabar de ilustrá-lo. Não tenho como precisar quando isso acontecerá, sinto muito. Se isso lhes alegra, posso revelar que não tenho muita pressa.

À guisa de aperitivo e para combater os boatos de óbito deste bloquinho de notas, resolvi publicar um fragmento de Mamãe Gansa vai ao paraíso, primeiro arco de Dedo negro com unha. Leiam, leiam.


(...) A passo de escoteiro, você consegue chegar ao centro do lugarejo em não mais que deleitáveis vinte e alguns minutos. São duas ruas paralelas, uma cansada de seus paralelepípedos e outra do mesmo barro quase ocre e sempre seco e muito rachado da estrada onde você encontra (fazendo o caminho de volta) a placa pregada na estaca. Entre elas você imaginou que haveria uma praça, mas para seu constrangimento não há praças na cidade. Um observador mais atento em verdade nos diria que não há quase cidade na cidade, mas ele não foi convidado para este quinhão da narrativa.

Garotos de calças curtas brincam nas calçadas que alguém plantou em frente às casas, menos à beira do armazém colorido. Trata-se da única edificação a quebrar a monotonia do centro da cidade, de resto marcada apenas pela geografia acidental de algumas residências. As crianças de Baixo do Ribas têm lábios rachados e narizes que sangram a todo momento, tornando a crostinha vermelho-negra um acessório corriqueiro ao redor de suas narinas. Possuindo apenas duas ruas para seus folguedos, é nada menos que previsível que estas crianças costumem explorar os arredores da urbe. A municipalidade de Baixo do Ribas também é seca, quase ocre e coberta de pó e rachaduras, com exceção de um pequeno bosque de vegetação rasteira e do único lugar no qual os pequenos não são bem-vindos para brincar: a velha pedreira.

A velha pedreira não é uma pedreira. Não existem rochas no perímetro de Baixo do Ribas, a cidade construída, povoada e esquecida ao final de um caminho ressecado protegido pela vertigem de seus barrancos. Se você virasse à esquerda ao fim da rua de paralelepípedos e tivesse a persistência de abrir caminho por entre o bosque de arbustos espinhosos de folhas quebradiças e depois tomasse de novo a sinistra e só então seguisse em linha reta por quase metade de um dia, acabaria chegando à velha pedreira. Tivesse você a felicidade de palmilhar esta via proibida no dia correto e na hora exata, encontraria três crianças – duas garotas de vestidinho de chita, um menino pançudo – descalças, mochilas de lona nas costas e calos curiosos nas mãos, desbravando o único lugar que lhes é vetado em Baixo do Ribas, cidade que, como qualquer lugarejo sem muito contato com as massas civilizatórias, cultiva grande respeito por seus tabus e não costuma dar atenção a porquês.

Mas você não estava lá e nada viu, então leia:

Jamais alguma criança de Baixo do Ribas pisara na velha pedreira. Na verdade, há incontáveis eras nenhuma criatura de qualquer idade ou espécie encostava o pé ou a pata ou o exoesqueleto ou qualquer parte do corpo dentro de seus limites, nem ao menos para tentar entender como um lugar poderia ser chamado de pedreira em uma região carente de rochas. Até os fabulosos besouros quadricórneos, onipresentes na região, receavam chegar muito perto dela, assim como as já extintas serpentes emplumadas. A primazia dessa exploração coube a Evita, Lili e Adinho, que de posse de seus óculos de natação – para proteger os olhinhos da poeira penetrante – e de um extenso cabedal de ferramentas – para impedir qualquer intransponível surpresa – ingressam na velha pedreira e caminham com muito gosto, algum temor e considerável excitação por seu território. A velha pedreira:

Um espaço quase circular em sua perfeição, se observado de uma altura aproximada de nove mil pés. Para os que estão no solo, apenas um descampado muito amplo, destacando-se do restante de Baixo do Ribas por seu solo muito fofo e de um tom definitivamente diverso de qualquer coisa que lembre o ocre. A cada passo, as crianças deleitam-se com o tato da superfície quase movediça nos cascos de suas solas. Mesmo ainda não tendo sido convidado para esta narrativa, o observador mais atento ressurge para nos revelar que este solo é composto de minúsculos fragmentos de rocha, mais exatamente de todas – todinhas! – as rochas que um dia existiram na região. Reduzidas a minúsculos grãos de poeira macia quase esbranquiçada, foram determinada tarde reunidas em círculo pelos zelosos Gigantes de Muito Antanho, à guisa de cemitério. As três crianças abrem as banguelas quando, sem precisar espichar muito as orelhas, escutam o ruído que o solo peneirado da pedreira faz ao ser compactado pelo peso de seus corpos. Entre latido e lamento, tão áspero quanto agradável, é impossível ignorá-lo enquanto continuam a deixar pegadas macias e inegáveis atrás de si. Assim que chegam ao ponto que consiste no exato centro da circunferência da velha pedreira, Lili estica os braços para o alto de modo a reduzir a tensão em seu esqueletinho e anuncia:

Lanchinho!

(Evita, Lili e Adinho são alunos de Vera Denaus, prefeita e única professora de vernáculo & literatura de Baixo do Ribas, profissão que abraçou após aposentar-se de sua carreira de meretriz interestadual. É também a proprietária do único poço da cidade. Buraco muito profundo, foi perfurado pelo tataravô de Vera, Isaque, fundador do município. Comunica-se com um inesgotável lençol infraterrestre que é a única fonte de água potável em um raio de quarenta e dois quilômetros habitados por viv’alma. Cada um dos equipamentos empregados na perfuração do poço utilizava uma tecnologia esquecida, por puro capricho, há pouco menos de duas gerações.)

Atentos à liderança tácita de Lili, que sem grandes considerações dramáticas arranca os óculos de natação que lhe apertam a fronteira norte das bochechas, Adinho e Evita fazem o mesmo e em seguida arriam-se os três no conforto do solo. Enquanto recuperam o fôlego, quase quietos e encarando um ao outro com sorrisos bufantes, proporcionam-me um intervalo precioso que será utilizado para uma sintética mas informativa descrição de cada personagem, indo além das já citadas crostinhas de sangue ao redor das narinas – é de bom tom nunca esquecê-las.

Evita olha sempre para baixo antes de pensar em fazer qualquer outra coisa. É morena, cabelos pretos de um curto desajeitado a decorar a pele desbotada lembrando alguma matéria escura misturada com um terço de leite. Quando fala, ninguém escuta, o que resulta em que todos (ou quase) tenham a certeza de que é muito quieta. A constituição miúda, aliada à falta perceptível de qualquer hiperlordose ou bônus vertebral de semelhante quilate, não fornece grandes esperanças para um aumento pós-púbere em seus encantos pessoais. Poderia encher algumas linhas tagarelando sobre seus cambitos ou — coitada! — seus joelhos vesgos qual desgraça, mas o mais adequado parece mesmo declarar que Evita é uma menininha de um sem-gracismo inapelável. Sempre que se permite, é inteligente o bastante.

Adinho usa óculos de grau muito positivo, e lhe fascina comer pão dormido. Escorrido e desabando sobre os olhos, seu cabelo é castanho-escuro, assim como toda a extensão de sua pele que ainda não foi manchada pelo vitiligo. Os olhos, além de deficientes, são oblíquos e separados por uma distância pouco usual em sua amplitude. Está sempre sorrindo, mesmo quando chora. Gosta de imitar qualquer coisa que se mova. É apaixonado por Evita e um dos únicos que conhece sua voz, mas não consegue reagir – e, é fato, nem controlar as cócegas grudentas perto do traseiro – quando Lili o puxa pelos pulsos para trás do armazém colorido e ciciando escorrega a língua em sua boca e mastiga seus beiços para depois correr para longe, desviando aos saltos do eco das próprias risadas.

Lili, que para todos os efeitos é mesmo dona de uma voz de estridência particular, quase quadrimensional, perdeu metade de uma orelha quando tinha dois anos e três meses, arrancada por um leitão de maneira não muito agradável de descrever ou mesmo rememorar. Isto digo porque sei; ao populacho, o que mais chama a atenção em sua cabeça é a cachoeira acobreada de seus cabelos, os olhos bastante verdes e a boca pequena mas gorducha e, como o solo de Baixo do Ribas, quase ocre. Tal boca, assim como sua dona, não pára nunca de se espremer e espevitar e movimentar em coreografias tão estereotipadas quanto interessantes. Arredondada, arrebitada e curvilínea muito antes da menarca, é de fato um clichê-em-progresso de femme fatale capaz de frustrar a fome de inocência de qualquer pedófilo acidental. Mija na cama em noites de lua minguante.

Todos têm exatos nove anos – nasceram com uma diferença de minutos, de mães vizinhas: todos são filhos do mesmo pai, peculiariedade que desconhecem – e estão tentando mastigar as maçãs verdes (produto importado) que Lili trazia na mochila. O esfomeado das banguelas traçando trilhas binárias na superfície encerada das frutas é um espetáculo tão curioso aos meus olhos que cessa aqui a vontade e mesmo qualquer necessidade de ir adiante neste exercício de descrição.

Esvaziando as mochilas, cada um mostra o que trouxe de surpreendente para a aventura: um saco de estopa, uma colher inoxidável, um cantil de estanho: o saco de estopa está vazio, a colher inoxidável arranhada e o cantil de estanho cheio de água. Lili agarra um punhado do solo da pedreira e o despeja dentro do saco, e outro e mais um e assim por diante, enquanto Adinho e Evita umedecem com destreza outra razoável porção dos minúsculos grânulos e ocupam-se de dar-lhe forma humana com auxílio da colher. Ao fim da brincadeira, o homenzinho é decorado – botões, antenas, um bigode – com o que restou das maçãs. Gera certo orgulho em seus criadores e despeito em Lili, agora inútil proprietária de um saco de estopa recheado com poeira mineral. Quando, qual cadelinha em domingo de sol, Evita ajoelha-se e começa a bafejar nas narinas de sua criação, Lili chacoalha os cachos e deixa escapar uma de suas risadas:

Não se pode dar vida a algo soprando em seu nariz, tansinha!, e pisoteia o homúnculo.

Pausa de um minuto, seguido de silêncio coalhado de ações. Beiços em bico, olhos baixos, Evita cavoca o solo da velha pedreira com golpes duros de sua colher, enquanto Lili permanece de pé sobre o que restou do homúnculo, uma obscena gota de suor traçando uma descendente muito reta do alto de sua testa até seu lábio superior. Coçando a cabeça, Adinho toma o último gole do cantil enquanto ensaia seu primeiro confronto com Lili, quando a colher cavocante de Evita entra em choque com algo sólido. É um objeto vagamente cilíndrico, de extremidade afilada e não mais que nove centímetros. A todos parece uma só coisa:

Um dedo, suspira Evita, puxando o objeto da areia. É um dedo de negro, completa Adinho, ao que Lili arremata, surpresa nos sobrolhos, Tem uma unha, olha só, uma unha! A gente achou um dedo de negro com uma unha! Mal termina de falar e a mão esquerda de Evita já está agarrando o dedo de negro com uma unha e o encostando de encontro ao peito, boca escancarada escorregando sentenças que nenhum dos outros possuía o conhecimento necessário para compreender, até que calhou de repetir Confitebor tibi Domine in toto corde meo, narrabo omnia mirabilia tua* por vezes sem conta, para que se pudesse enxergar com perfeição cada palavra ao ser pronunciada.

Ganhando a atenção dos coleguinhas através de tão visual demonstração do latim, desatou a falar por meio de unidades mínimas, empilhando exinanições e querróbias e grogotós e drimônias e hafnias e escrotocinetomancias e paparices e paráfrases apócrifas, que confusão!, a menina engolira um dicionário e ninguém ali com um purgante alfabético na mochila de lona. Rosnando entredentes Não começa, Evita, não começa, Lili arrancou o dedo de negro com uma unha dos gravetinhos dáctilos de Evita, que suava cera, olhos desorbitados, pés suspensos não mais tocando o solo granulado da velha pedreira. Silenciou assim que o dedo de negro com uma unha lhe foi subtraído e permaneceu a flutuar, alheia ao oco das pancadas que Adinho, sorridente e chorando, desferia em Lili, montada sobre seu peito e contemplando extática o dedo de negro etc. (...)

* Eu te louvarei, Senhor, com todo o meu coração; contarei todas as tuas maravilhas. (N. do T.)

Por Daniel Pellizzari em março 11, 2004 5:33 PM

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)