fevereiro 12, 2004

Adágio para umbigos

Noite. Um bar vazio, com exceção de uma mesa com quatro escritores mortos e várias garrafas, também vazias.

SAMUEL BECKETT: Tá, mas alguém discorda que realismo é coisa de veado?

DANIIL KHARMS: Ô. Perder a fábula é perder a alma.

JULIO CORTÁZAR: Ele não tá falando exatamente de alma, Dandan.

FRANZ KAFKA: Sabem de uma coisa? A gente nunca mais vai sair desse bar.

KHARMS: Ih, começou. Tá na hora de parar de beber, Chico.

KAFKA: Tô falando sério, ô morto de fome.

CORTÁZAR: Ô Chico, qualé a tua? Pega leve.

KAFKA: Vocês nunca me escutam. Que se fodam. Nunca vamos sair nem dessa mesa, muito menos do bar.

CORTÁZAR: Cara, não é só porque não tem mais trago que tu tem que pirar.

KAFKA: Então tá. Não falo mais nada.

BECKETT: Não vamos sair nunca daqui, essa foi foda.

KHARMS: Falando nisso, alguém tem horas?

BECKETT: Não.

CORTÁZAR: Não uso relógio, tu sabe. Esqueço de dar corda.

KHARMS: Porra, não tem mais ninguém na merda do bar. Deve ser tarde.

CORTÁZAR: Pergunta pro cara que atende, pô.

KHARMS: Cadê ele?

BECKETT: Sei lá. Putz, tem boteco que é dureza.

KAFKA: Vocês nem percebem, né? A gente tá aqui há sei lá quantas décadas, falando merda sem parar, e vocês nem se dão conta. O dia nunca amanhece. Não tem ninguém no bar porque o bar não existe. Nem nós. A gente tá preso aqui.

CORTÁZAR: Vai à merda, Chico.

KAFKA: Ah, é? Então experimenta levantar da mesa pra ir no banheiro.

CORTÁZAR: Não tô com vontade.

KAFKA: Tenta. Quero ver.

CORTÁZAR: Não quero, cara!

KAFKA: Tu não ia conseguir. Não tem como sair dessa mesa.

CORTÁZAR: Ah, tá bom, tá bom. Azar o teu. Não vou fazer isso só pra tu ficar feliz.

KAFKA: Não faz porque não conseguiria. Eu já disse: não vamos sair daqui nunca.

KHARMS: Falando nisso, o que vocês acham dos ensaios que o Borges escreveu sobre a eternidade e o eterno retorno, esses papos todos?

BECKETT: Putz, o Borges é um mala. Fala, fala e não diz nada. Um belo fabricante de lingüiça oca, isso é o que ele é. Bosta n'água de meia-tigela. E também não sabe beber. Ainda bem que ninguém convidou ele pra sair hoje.

KHARMS: Mas foi sacanagem terem esquecido do Joyce, ele é gente fina e sabe umas musiquinhas do caralho.

BECKETT: Pô, eu até liguei, mas ele já tinha saído com o Hemingway pra beber na casa do Dylan Thomas.

CORTÁZAR: Com o Urso? Lá no Nenezão? Caralho, isso vai dar merda. Era uma boa a gente passar por lá daqui a pouco, hein?

KAFKA: Tô começando a ficar nervoso. Quem sou eu? Onde a gente tá? Quem são vocês? Quem colocou a gente aqui? Por que não conseguimos ir embora? A gente já não morreu há um tempão? Que saco isso, caras. Prestem atenção.

BECKETT: Cala a boca, Kafka. Putalamerda.

CORTÁZAR: É, Chico, fica quieto.

KAFKA: Nunca mais vamos sair daqui. Não tem como.

CORTÁZAR: Tá, Chico, tá.

BECKETT: Tu é muito impressionável, cara. Cadê teu orgulho judaico?

KHARMS: Pára de chorar, Chico. Deixa de ser ridículo.

CORTÁZAR: Opa, agora bateu uma vontade de dar um mijão.

BECKETT: Então vai no banheiro, ora.

CORTÁZAR: Daqui a pouco. Agora deve ter uma baita fila.

KAFKA: Não tem ninguém nesse bar de bosta, cara. Eu já disse. Tu não vai conseguir levantar.

KHARMS: É, a fila deve estar foda, mesmo. Vai depois.

CORTÁZAR: É, eu me agüento aqui.

BECKETT: Cacete, Kafka, pára de chorar!

Cortina.

Por Daniel Pellizzari em fevereiro 12, 2004 12:33 AM

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)