fevereiro 12, 2004

Instruções para desenterrar gigantes

Julio Cortázar (1914-1984)Un cronopio va a abrir la puerta de calle, y al meter la mano en el bolsillo para sacar la llave lo que saca es una caja de fósforos, entonces este cronopio se aflige mucho y empieza a pensar que si en vez de la llave encuentra los fósforos, sería horrible que el mundo se hubiera desplazado de golpe, y a lo mejor si los fósforos están donde la llave, puede suceder que encuentre la billetera llena de fósforos, y la azucarera llena de dinero, y el piano lleno de azúcar, y la guía del teléfono llena de música, y el ropero lleno de abonados, y la cama llena de trajes, y los floreros llenos de sábanas, y los tranvías llenos de rosas, y los campos llenos de tranvías. Asi es que este cronopio se aflige horriblemente y corre a mirarse al espejo, pero como el espejo está algo ladeado lo que ve es el paragüero del zaguán, y sus presunciones se confirmam y estalla en sollozes, cae de rodillas y junta sus manecitas no sabe para qué. Lós famas vecinos acuden a consolarlo, y también las esperanzas, pero pasan horas antes de que el cronopio salga de su desesperación y acepte una taza de té, que mira y examina mucho antes de beber, no vaya a pasar que en vez de una taza de té sea un hormiguero o un libro de Samuel Smiles. ("La foto salió movida", in Historias de cronopios y de famas).

Hoje completa-se a primeira vintena de anos da morte do titã gentil, Julio Cortázar (1914-1984), emblema incômodo da superioridade argentina e do fato de que até comunistas conseguem ser geniais. Escreveu como um demônio tocador de alaúde e, como é notório, não parou de crescer até o dia em que morreu. As regras permitem - a quem se incomodar com seu argentinismo - alegar que o Lorde das Imensas Orelhas nasceu em Bruxelas e que na prática era tão comunista quanto hmm, bueno, isso não se pode negar, maldição profunda. É um dos únicos autores de língua espanhola que tenho paciência de ler no original, o que recomendo a qualquer um que preze seu senso de prosódia.

Dia desses o Joca Reiners Terron falou da Síndrome de Cronópio, moléstia que atacava o desmesurado Cortázar e vários outros escritores dados a absurdismos em sua ficção, o que inclui também autores de menor estatura como este que vos digita e o próprio Joquinha. Seus sintomas foram assim descritos por Francisco Porrua, editor e amigo do falecido cronópio-mor: com Cortázar aconteciam coisas estranhas o tempo todo. Supostas casualidades e manifestações do acaso que ele não considerava como meras coincidências. Toda hora lhe aconteciam coisas assim: a realidade acabava convertendo-se em eco de seus contos. Uma vez me contou que recebeu uma carta dum tal John Howell que lhe comentava, quase aterrorizado, que a ele havia sucedido exatamente o mesmo que ao John Howell de "Instruções para John Howell": haviam-no feito subir ao palco no meio duma peça de teatro e depois... Cortázar se referia a estes acontecimentos como Figuras. Assegurava que absolutamente tudo respondia a formas, a figuras que podia-se ler como se tratassem de contos ou de novelas e que, caso se conseguisse decodificá-las, permitiam adivinhar o futuro da trama de nossa vida e inclusive o que acontecia nas bordas dessa trama. De modo que nossa figura interseccionava com as figuras de outras pessoas. E o curioso é que, se houvesse alguma relação mais ou menos próxima a Cortázar, essas estranhezas começavam a acontecer com você. É, é. Deveras familiar, temo que seja.

Creio que meu xará e padrinho russky Daniil Kharms (1905-1942), autor do credo "interesso-me apenas pelo que não faz sentido algum, por aquilo que não tem nenhuma aplicação prática; interesso-me pela vida apenas em suas manifestações absurdas", talvez tenha sido a mais infeliz das vítimas da Síndrome, ainda que provavelmente a menos ilustre.

Daniil Kharms (1905-1942)Kalugin adormeceu e sonhou que estava sentado perto de alguns arbustos, por onde passava um policial. Kalugin acordou, coçou sua boca, dormiu novamente e teve outro sonho no qual estava passando por alguns arbustos e que um policial estava sentado atrás dos arbustos, onde se escondia. Kalugin acordou, pôs um jornal sob a cabeça para não molhar o travesseiro com sua baba e, mais uma vez, dormiu; e mais uma vez sonhou que estava sentado perto de alguns arbustos por onde passava um policial. Kalugin acordou, trocou o jornal, deitou e dormiu novamente. Adormecendo, teve outro sonho no qual estava passando por alguns arbustos onde se escondia um policial. Nesta altura Kalugin acordou e decidiu não dormir mais, mas imediatamente caiu no sono e teve um sonho no qual estava sentado perto de um policial por onde passavam alguns arbustos. Kalugin gritou e revirou-se na cama, mas não conseguiu acordar. Kalugin dormiu sem parar por quatro dias e quatro noites, e no quinto dia acordou tão fino que precisou usar cordas para amarrar suas botas nos pés, de modo que não escorregassem. Na padaria onde Kalugin sempre comprara pão integral, não o reconheceram e deram-lhe pão misto. Uma comissão sanitária estava passando pelos apartamentos e, ao enxergar Kalugin, decidiu que ele não apenas não era sanitário como também não servia para nada, e instruiu os zeladores a jogarem Kalugin fora junto com o lixo. Kalugin foi dobrado em dois e jogado fora como lixo. ("O sonho", a partir da tradução inglesa).

Na última vez em que foi preso em nome do Povo por atrasar o processo revolucionário ou coisa que o valha, largaram o pobre Dandan de pijama em uma solitária do hospital psiquiátrico de Leningrado e o esqueceram por lá. Acabou morrendo de fome e frio durante o cerco da cidade pelos chucrutes, há quase exatos sessenta e dois anos. Reza a lenda que, ao lembrarem de sua existência, o corpo fora totalmente devorado pelos ratos. Nada mais restava na cela além de trapos e, não é pecado imaginar, alguns pares muito obesos de ratazanas com disenteria alfabética. Três vivas para o Paizinho Stalin.

Em meu conto "Adágio para umbigos", as almas imortais de Cortázar e Kharms foram confinadas na companhia dos atmans de Samuel Beckett (1906-1989) e Frantisek Kafka (1883-1924) em um boteco (*pisca-pisca* *cutuca-cutuca*), digamos assim, quase platônico.

Por um desses acasos que assustam pela trivialidade, tal conto surgirá daqui a alguns segundos neste mesmo endereço, a apenas um post de distância. Palmas para ele.

(Ah, sim, devemos lembrar: daqui a seis meses e catorze dias cronópios, famas e esperanças do mundo todo comemorarão os 80 anos de nascimento do tio Julio Denis Cortázar. O resto do planeta, devo alertar, não existe).

Por Daniel Pellizzari em fevereiro 12, 2004 12:25 AM

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)