dezembro 2, 2003

Autópsia de necrosados

Não é difícil perceber que a Grande Guerra do século passado, aquela que começou em 1914 e terminou em 1945, foi o tiro na cabeça da civilização ocidental (você sabe: aquela concebida pelos gregos e posta em marcha pelos romanos com uma dose de malícia latina e um certo tempero sincrético oriental).

É verdade, ela já sofrera alguns pequenos ajustes de rumo na Renascença. Nada de grave, apesar do Rafaello. A ascensão da burguesia ao fim do feudalismo trouxe alguns indícios de que as coisas não iam bem, como o surgimento do protestantismo e a abertura para aquela imensíssima patuscada conhecida como Revolução Francesa. Sim, aquela confusão sem pé nem cabeça que não serviu para nada além de institucionalizar a política do ressentimento com bobagens do tipo "todos os homens são iguais por natureza". Suspeito que este é o momento em que o Ocidente começou a perder a noção das cousas.

Depois da Grande Guerra do Século XX, fenômeno que inclui a Revolução Russa de 1917, foi inevitável o aniquilamento do legado civilizatório ocidental. Como queriam aqueles franceses que não sabiam muito bem o que queriam, o final da Grande Guerra (apesar da retórica, um embate de niilismos: viva o povo no poder, avante nacionalismo, um hurra para o estado gigantesco!) trouxe um novo Ocidente - e, por decorrência, um novo mundo -, um Ocidente que só não é tabula rasa por conta das migalhas que restaram de sua glória anterior. Como no século XIX já haviam começado a perceber os decadentistas (verdadeiros estetas são os melhores arautos de qualquer coisa), a civilização ocidental já estava moribunda. A Grande Guerra apenas decidiu qual dos vermes roeria seu cadáver inevitável.

O rabo do verme vencedor inoculou metade do "novo mundo" com um bacilo totalitarista, um pesadelo que demorou quase meio século para terminar e do qual muitos - é inacreditável - ainda não acordaram (aqui eu poderia fazer uma piadinha com Stephen Dedalus; não farei, e agradeçam). Já a cabeça, sempre mais forte, mergulhou o "novo mundo" em um devaneio de luzes e velocidade no qual se inventaram abominações como a adolescência e os carros esporte e do qual a cultura de massas e a contracultura são as pontas mais visíveis. Ambas, é inegável, tiveram seus benefícios. O elixir do Dr. Pemberton, por exemplo. A criação e popularização do computador pessoal e seus desdobramentos infinitos. A versão de Peter Jackson para "The lord of the rings". É uma boa lista, até, mas não salva o dia.

Seria excesso de entressonho imaginar o que o outro verme faria se houvesse vencido. Como escolher entre os criadores dos Einsatzgruppen ou os pais do Projeto Manhattan? Podemos aplicar o Paradigma do Zohar ("Qualquer coisa que vá contra os judeus é automaticamente contra o Ocidente", uma das poucas coisas relevantes que já percebi enquanto dormia), mas é justo conceder que poderia ser no mínimo tão bom e tão ruim quanto o que temos agora: um espectro indefinido, presa fácil para os mais variados tipos de barbarismo. O "novo mundo", que ainda não é e talvez nunca será propriamente uma civilização, não passa de um rebanho de covardes anônimos do qual é difícil escapar. O sentido heróico da existência, marca da antiga civilização ocidental na mesma medida que a importância da Razão, a valorização do indivíduo e o cultivo da beleza transcendente, deu lugar ao coletivismo disforme e insensato, à glorificação do medíocre, ao "abaixa a cabeça aí e não ouse subir nos ombros de algum gigante".

É triste, é demasiado triste. Nem o cinismo serve mais de escudo, porque já foi cooptado. Das defesas clássicas, talvez apenas a presunção ainda tenha algum potencial bélico. A presunção e os suspiros, estes últimos desde que com algum estilo. Ah, dane-se. Melhor botar a culpa nos maçons. Peço perdão ao meu falecido avô 33', mas aqueles aventais são muito, muito bregas.

Por Daniel Pellizzari em dezembro 2, 2003 12:05 AM

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)