novembro 22, 2003

Madalena Redux

Atrasou, mas isso também acontece. Acaba de sair a segunda edição revista d'O livro das cousas que acontecem, meu segundo filhote. Aos colecionadores, admiradores incondicionais e demais completistas, informo que alguns contos sofreram leves modificações e que, uau, o vermelho da capa tem menos negro na sua composição. Quem não tem e quer, quem tem e quer mais, quem quer presentear: o livro está disponível aqui (últimos exemplares da primeira edição, creio) pelo preço antigo de R$19,00. Pedindo diretamente da editora, o preço fica em módicos R$20,00, mas isso já inclui despesas de postagem e garante o recebimento de um exemplar da segunda edição. Para continuar a comemoração e de modo a alegrar a torcida, posto aqui um dos contos do livro. Se você já conhece, preste atenção no último parágrafo.

ANA
Daniel Pellizzari

Certa noite a contorcionista do Circo Garcia não apareceu para o espetáculo. Ficou trancada em seu trêiler, ouvindo vozes e passando muito mal, com pontadas na cabeça e tossindo sem parar. Continuou assim e com o nariz escorrendo durante os dias seguintes, preocupando seu chefe Wally Garcia, o mágico da cartola, e seu marido Los Angeles dos Anjos, o atirador de facas. Quando completou duas semanas longe do picadeiro, a contorcionista do Circo Garcia espirrou com muita força e sentiu algo escapando por sua narina esquerda. Quando abriu os olhos (lembramos aqui que é impossível espirrar de olhos abertos) deu de cara com um pequeno homúnculo de aproximadamente quinze centímetros de altura, coberto de muco, que lhe sorria sentado no chão. No mesmo instante cessaram as vozes, as pontadas, a tosse, a coriza e o furor uterino do qual ainda não tínhamos falado nem vamos falar, pois não tem o menor interesse para a vida de Eduardo, que é como o homúnculo foi batizado.

Para alguém que não nasceu, surgiu, Eduardo teve uma infância atribulada, apesar de já ter nascido adulto. Rumores sobre a história milagrosa de seu nascimento acompanhavam a trupe do Circo Garcia por onde quer que andassem, o que despertou o comichão da ganância em Wally Garcia e sua cartola. Eduardo, o filho da contorcionista, começou a ser exposto na tendinha de aberrações que costumava ser erguida ao lado do circo. Passava dias e noites sendo observado, o que muito lhe incomodava, principalmente quando alguém lhe atirava pipocas doces. Após algumas temporadas cansou deste tratamento e resolveu fugir. Vestiu uma espiga de milho com suas pequenas roupas, feitas com carinho por Carolina, a Mulher Barbada, e escapuliu por baixo da lona. Meia década depois aconteceu um incêndio no Circo Garcia e a contorcionista foi uma das vítimas fatais, mas isso não faz o mínimo sentido nem tem relação com Eduardo, que a esta altura estava vivendo contra a sua vontade em um laboratório muito asséptico.

O Dr. Krleza possuía uma interessante teoria sobre a loucura, baseada em sua convicção de que o ar estava cheio não apenas de bacilos e toda uma cornucópia de animálculos, mas também de homúnculos que poderiam ser aspirados por acidente e em seguida se hospedarem dentro do crânio de pessoas até então muito normais, compartilhando seus pensamentos e assim causando delírios, vocações poéticas e outras afecções da mente. Mesmo não sendo exatamente microscópico, Eduardo era a prova empírica de que necessitava para sedimentar o fato da existência de misteriosos homúnculos. Mas, infelicidade profunda, eles nunca se conheceram e nem ao menos ouviram falar um do outro, provavelmente pelo fato do Dr. Krleza viver na Croácia e Eduardo no Brasil, mais precisamente em uma cidade que não tem relevância alguma para esta narrativa. O que nos importa é que depois de vagar pelo mundo algum tempo após sua fuga, Eduardo concluiu que as ruas eram perigosas demais para alguém com menos de três palmos de altura e se deixou ser adotado por uma patologista solteirona viciada em trabalho e em óxido nitroso. Sempre de branco, batom vermelho e unhas cortadas rente, ela morava em um apartamento ao lado de seu laboratório de análises clínicas e passava grande parte do seu dia ocupada com o microscópio, rindo sem parar e utilizando os então dezoito centímetros de nosso homúnculo em certa atividade lúbrica que não temos competência, desenvoltura ou desinibição para descrever em detalhes.

Tal período – que umidade! que odor! que pachorra! – exerceu grande influência no mau humor apresentado por Eduardo ao completar vinte centímetros de altura, algumas semanas depois de abandonar suas funções involuntárias no laboratório. Morava então nas dependências de serviço de um shopping center, no qual inclusive arranjara um emprego como duende de Papai Noel. As crianças e seus pais imaginavam que ele era uma espécie de pequeno autômato muito realista, e enchiam o recinto com arrulhos de admiração. Nos intervalos, longe da clientela, o Papai Noel bebia um pouco de rum de sua garrafinha metálica e compartilhava com Eduardo toda a sua estranha alegria de passar o dia com criancinhas sentadas em seu colo. Eduardo permanecia entediado em suas tarefas de duende, que lembravam demais suas temporadas na tenda de aberrações, até que no início de uma noite que nada tinha de especial, uma mulher que estava de mãos dadas com seu filho na fila do Papai Noel deu um espirro muito forte, de boca aberta, lançando muco e perdigotos para todos os lados. Juntamente com estes, arremessou também uma mulherzinha sorridente de dez centímetros aos pés do Papai Noel. Ao vê-la, coberta pela gosma brilhante, Eduardo foi tomado de tamanha alegria que começou a inchar. Inchou sem parar, como um baiacu, até começar a flutuar pelo shopping, para espanto dos freqüentadores, que desviaram a atenção da mulherzinha recém-surgida. A certa altura a felicidade de Eduardo chegou a um ponto em que seu pequeno corpo, tendo atingido seus limites de expansão, explodiu sem ruído e seus fragmentos pulverizados caíram devagar, como neve rala, sobre a decoração natalina do shopping.

Nas linhas acima lembramos de Eduardo, mas na verdade gostaríamos de contar a história de Ana, nascida normalmente através de uma vagina após nove meses de gestação tranqüila, um bebê roliço e cacheado que fraturou o braço aos nove anos mas se recuperou bem e nunca aprendeu a nadar e foi uma jovem feliz e cresceu até quase um metro e sessenta e cinco e casou com o belo e bom Gabriel que nunca lhe traiu e com quem teve três filhos obedientes que se mudaram para o exterior e não lhe deram netos e morreu velhinha ao final de uma tarde de primavera tirando uma soneca depois de tomar chá com biscoitos de gengibre lendo um almanaque de variedades. Mas ela nasceu morta, coitadinha, e graças a isso nada temos o que contar sobre ela.

(De "O livro das cousas que acontecem", p. 33-37)

Por Daniel Pellizzari em novembro 22, 2003 7:15 PM

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)