novembro 22, 2003
Apêndice sem utilidade alguma
Mas um verdadeiro novo caminho para a literatura no Brasil seria ter leitores. Sim, admito que é um projeto pretensioso, mas seria interessante. O problema é que vivemos em um país que, além de ter pouco mais da metade da sua população sambando bonito nas praias do analfabetismo funcional, sofre de uma estranha repulsa congênita pelo conhecimento. Isso afeta não apenas a ficção, mas qualquer tipo de leitura ou atividade instrutiva. No Brasil Suado, esse reino da mesa de bar que tanto valoriza a malandragem, a malemolência e a escola da vida, o sujeito precisa ter vergonha de ser instruído. É imperioso que qualquer um que tenha uma mínima intimidade com séculos de história e cultura humanas mantenha-se calado sobre qualquer assunto que vá além do prosaico. É lei tácita que tais sujeitos abjetos devam afetar uma modéstia acanhada, sob pena de receberem comentários do tipo "está querendo se mostrar", "olha só como é arrogante", "se acha especial" ou, claro, o rótulo predileto dos totalitaristas da insciência: pseudo-intelectual.
Se, como é comum, um indivíduo armazena na memória todos os resultados, escretes e melhores momentos dos Campeonatos Brasileiros de futebol desde 1970, e ainda traz de bônus fantásticos relatos sobre todas as Copas do Mundo, uau, o cara adora futebol. Ninguém o chama de pseudo-comentarista-de-mesa-redonda. Cuida do corpo, está sempre disposto a usar aquela sunguinha maneira, freqüenta academias de ginástica, joga uma bolinha no fim-de-semana: nunca ouvi ser chamado de pseudo-atleta. Mas hah, faça referência a dois autores pertinentes a algum assunto que esteja sendo discutido e pronto, virou pseudo-intelectual. Não estou falando de códigos maçônicos ou de filigranas de equações diferenciais, mas de simples fatos concernentes a qualquer homo sapiens que ainda respire. Não adianta: pseudo-intelectual. O mais patético é que quase sempre as vítimas desse preconceito (ainda não formaram uma ONG nem pleiteiam feriado, ao que eu saiba) não têm a mínima intenção de serem intelectuais. Seus algozes não reconheceriam um intelectual nem que este se pusesse a enfiar a obra completa de Bakhtin por suas goelas abaixo.
O resultado dessa sandice inexplicável (alguém tem idéia sobre como isso começou?) é a penúria mental em que vive uma boa parte dos membros da classe média e alta do Brasilzão Sol & Mar. Ao contrário do que se pode dizer em defesa, ainda que discutível, dos desfavorecidos, estes têm tempo e dinheiro de sobra para obterem alguma instrução, aprenderem mais sobre a trajetória humana, refinarem sua percepção de mundo. Deveria ser um prazer, mas é uma obrigação da qual se foge do jardim de infância até a caixa de apodrecer. Gente assim não só não tem a mínima capacidade de entender ficção, mas também não presta para entender o mundo que os rodeia. E, vejam só, são a maioria. E porque querem. Porque ser pseudo-intelectual é feio. Porque o simples ato de saber e dividir o que se sabe é crime de arrogância. Porque todas as pessoas são iguais.
E é num país assim que muitos abnegados continuam a escrever, traduzir, editar. Que alguém os canonize, pois diariamente seguem para o martírio com um sorriso extático no rosto, certos da retidão de seu caminho. Amen.
Por Daniel Pellizzari em novembro 22, 2003 4:44 PM
