novembro 22, 2003

Mais inutilia

O que seriam, afinal, os tais novos caminhos para a literatura? Estamos falando de forma, de conteúdo, de elementos extra-literários? Acima de tudo, a literatura precisa mesmo buscar novos caminhos de forma tão consciente? Alguém ainda se importa? Como existem pessoas que não gostam de comer? Existiria jornal diário mais engraçado que O Sul? Cheguei em Curitiba, o templo da assepsia urbana aplicada, com esse tipo de corcundas na cachola. Costumo ser convidado com certa freqüência a debates como este último, onde o mote é invariavelmente algo que contém o adjetivo novo. (Pausa para um suspiro).

De início posso dizer que cada escritor, ao dar início à sua obra, abre um novo caminho. Todo autor que surge, se tiver um tantico de decência, traz consigo um novo universo a desbravar, um jambalaya de linguagem, imaginação, influências, projeto de obra, porco, lagostas, a coisa toda. É preciso pensar em novos caminhos além deste, o óbvio irreparável? Não sei, mas já que precisei falar sobre o assunto aproveito o brógue para dividir alguns pontos com quem não pôde estar no debate.

Vivemos em tempos de certo modo complicados para os dez filadaputa que lê livro, é certo. Com a ascensão abrutalhada e fascinante da narrativa audiovisual no último século, a literatura perdeu evidência e saiu do posto privilegiado em que sempre estivera, de forma narrativa primária. O que para muitos escritores pode parecer terrível, tenebroso - como de fato o é, mas não completamente - a mim parece um convite à maior liberdade, ao completo abandono à imaginação. Ninguém está olhando. Ninguém se importa. Ninguém está lendo. Que maravilha.

Estamos livres, os escritores, para trotar levantando poeira pelos tais novos caminhos. Um dos novos caminhos mais interessantes, pelo que eu julgo, e costumo julgar bem, seria justamente o velho caminho. Ei, não estou falando do realismo (seja naturalista, psicologista ou, valha-me Abraxas, sociológico). Depois de dois séculos de domínio, este me parece um tanto exausto, tendo como única salvação a narrativa fragmentada. O que eu realmente gostaria ver de volta é a imaginação, a alegoria, a ficção pura e exuberante. Até algum maldito francês inventar que o que realmente interessa são as picuinhas cotidianas do burguês (para mais tarde, degringolarmos nas picuinhas cotidianas da rafaméia, tão poética que é, tão real, etc) a literatura se pautava pela imaginação, pela criação desenfreada, pela denúncia da criatividade do autor. Pense no Gênesis. Na Ilíada. As bacantes, as Metamorfoses. O Asno de Ouro. A Divina Comédia, Gargantua e Pantagruel, As Viagens de Gulliver, Tales of the Grotesque and Arabesque. Maldoror, as Alices. Certo, vocês entenderam.

Com as ascensão do romance realista, o que eu enxergo como a principal qualidade da literatura tornou-se artigo de segunda mão, limitado ou a guetos vanguardistas (surrealismo, anyone?) ou à recém-criada literatura de gênero, que reúne narrativas de horror, fantasia, policiais e ficção científica (o pior rótulo jamais criado para qualquer coisa que tenha alguma vez pensado em existir). Sim, existiram Gógol e Kafka, Cortázar e Bulgakov, Borges e Kharms, e assim por diante. Foram insurreições bem-sucedidas contra o status quo das narrativas interessantíssimos sobre a vida íntima de quarentonas, mas sua influência mal chegou às letras brasileiras. Aqui, mesmo depois do brilhantismo de um satirista como Machado de Assis, não nos restou mais que o romance de 30, o sociologismo regionalista, as narrativas naturalistas sobre uma suposta realidade dos desfavorecidos, que seria A Realidade. E quem se importa com a, ahn, Verdadeira Realidade? Eu me importo com o fato do humor, da sátira, da paródia, da ironia, ainda serem consideradas subliteratura (eu te odeio, Aristóteles), enquanto qualquer narrativa que mostre quão dura pode ser a vida para quem não tem dinheiro (e, tese mui querida pelos brasileiros, quão sábia e superior pode ser a ignorância) ou as agruras de relacionamentos e da gente que sofre por amor (amor, aqui, geralmente aparecendo como não mais que monomania, puro transtorno de atenção) seja considerada parâmetro de boa literatura.

Não é o caso de abandonar de vez o realismo em todas as suas facetas. Ele ainda pode render - e rende - trabalhos excelentes, fazendo com que a convivência, mais que possível, seja desejável. Um escritor sabe quando e como deve usar tal e tal tratamento para seu trabalho. Em arte, como em todo o resto, a destruição e as posturas niilistas não passam de totalitarismo. Não precisamos de ressentimento, precisamos de novas mitologias. Literatura não deveria ser caixa de recalques, mas janela para o que o humano tem de melhor. Não creio que precisamos de mais denúncia social estéril, mas sim da transcendência que denuncia a mediocridade. A melhor maneira de fazê-lo, a meu ver, é integrando todos os elementos possíveis em uma nova literatura de imaginação, da mesma forma que as tão desprezadas histórias em quadrinhos. Ninguém está olhando, ninguém se importa, podemos fazer isso sem grande alarde até ser tarde demais para que os acadêmicos esperneiem.

O adorável é dar-se conta que, finalmente, o processo já começou. A divina paródia, de Álvaro Cardoso Gomes. Não há nada lá e Hotel Hell, de Joca Reiners Terron. A coisa não-Deus, de Alexandre Soares Silva. Húmus, de Paulo Bullar. Deixe o quarto como está, de Amilcar Bettega Barbosa. Naquela época tínhamos um gato e Subsolo infinito, de Nelson de Oliveira. Não são os únicos. Autores diversos, enfoques diferentes, tendo em comum em seu trabalho a primazia da imaginação sobre a ditadura do mesquinho. Novos caminhos, afinal.

Por Daniel Pellizzari em novembro 22, 2003 4:15 PM

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)