novembro 22, 2003
Observação inútil
Uma das obrigações mínimas de qualquer escritor com um mínimo de vergonha na cara é ter um domínio técnico razoável, que lhe permita fazer o que quiser, quando quiser, do modo mais adequado. Prosa espontânea e sincera? Escritores são, acima de qualquer outra coisa, mentirosos profissionais. Compassivos, sim. Altruístas, pode ser. Visionários, vá lá. Mas sempre mentirosos, sempre maquiavélicos, sempre com domínio de seu texto. A sinceridade pode ficar para panfletos ou, caso o sujeito tenha a inclinação, para o confessionário (religioso ou laico, excluindo-se das possibilidades as mesas de bar). Já a espontaneidade não consigo imaginar para quê serviria, seja na literatura ou fora dela. Constranger as testemunhas, talvez.
Mesmo tendo isso em mente, admito ser perigoso estabelecer regras rígidas sobre o que é ou não literatura, e sobre como um autor deve ou não se portar ao fazer seu trabalho. Reconhecer literatura não é tarefa difícil, e pouco tem a ver com critérios objetivos ou impressionistas. Basta ter lido algumas centenas, talvez milhares, de obras de ficção. É uma espécie adestrada de intuição. Fica muito fácil perceber o que é literatura e o que é simulacro, sem ter que recorrer a nenhum teórico para fundamentar o julgamento. Você pode não gostar de uma narrativa, pode até abominá-la, mas será forçado a admitir que aquilo é, sim, literatura.
Não que alguém se importe com isso, é claro, mas o dever do ficcionista é exercer o inútil e me encanta ser obediente aos ditames do ofício.
Por Daniel Pellizzari em novembro 22, 2003 12:09 PM
