novembro 17, 2003
Bestiário da compaixão repugnante
Um. Aqueles que dedicam-se com todo o afinco que carregam nas vísceras a insistir que o muro que os cerca não é feito de tijolos, mas de algodão. Cabeceiam o muro dia e noite, parando apenas para anunciar aos passantes que, é bom que saibam, é definitivamente necessário que compreendam e aceitem, o muro é feito de algodão. E quando um desses passantes, movido pela perplexidade do acaso, resolve bater os nós dos dedos no muro e dizer Espia, são tijolos, sobrevém uma birra de jardim de infância. Os heróis do obtuso (apud MALABARES, Adenovir in "Passou, nenê, passou") macaqueiam indignação, o próprio sangue ainda esperneando-lhes o cabelo e a face, e urram É algodão, é algodão! para quem ainda tiver complacência de ouvir. Por fim afetam mágoa e acusam o passante de canalha, hipócrita, velhaco, para depois arremeterem de crânio contra o muro. Tump!, e o passante já dobrou a esquina, antes do próximo ai.
Por Daniel Pellizzari em novembro 17, 2003 4:09 PM
