terça-feira, 6 de maio
Polêmicas e praças
Como se não bastasse o fato de que o meu tiramissú estava meio azedo, um conhecido me diz, nos finalmente de um jantar medíocre, que o problema do Diogo Mainardi era que ele busca sempre escandalizar os leitores criando alguma polêmica ou falando mal de alguém.
Eu sempre achei que escritor bom tem que assustar o leitor com idéias bizarras e chocantes, mas que no fundo soem estranhamente razoáveis. Tem que pegar e estapear a moral de classe média, entrar sem licença na empoeirada saleta das suas convicções arrastando cortinas e escancarando janelas. Ou seja, tem de polemizar. Jornais, revistas, sites, TV são lugares de polêmica e, na minha programação ideal, elas deveriam estar repletas de Wildes, Shaws, Chestertons, Montaignes, Russels, Voltaires etc. etc., discutindo entre si e dando opiniões surpreendentes (ocasionalmente também haveria um programa de culinária e um filminho).
Não faz sentido escrever sobre algo que todo mundo concorda: um assunto é tedioso na exata proporção de sua capacidade de gerar consensos. Muitos duvidam da existência de deus e é exatamente por isso que ele é uma figura tão interessante. Se todo mundo tivesse certeza de sua existência, o criador despertaria tanto interesse quanto um patinete motorizado. Por isso costumo dizer que, quanto mais certeza em torno de um assunto, mais desinteressante ele fica, e já está óbvio a esta altura que não há nada mais tedioso do que uma obviedade.
Voltando ao mal fadado jantar, Mainardi está certo em ser polêmico, se é que é isso mesmo que ele pretende. Se uma revista com a tiragem de uma Veja se presta a alguma coisa que não nos dar notícias que já vimos nos jornais dois dias antes, essa coisa é gerar alguma polêmica. Praqueles que gostam de adulações, também existem espaços públicos pra manifestarmos nossa admiração unânime por grandes eventos e personalidades. Eles se chamam praças, costumam ter estátuas no centro, algumas árvores e amplos gramados onde podemos fazer piqueniques e, num dia de sol, ler jornais em busca de uma polêmica interessante.
quarta-feira, 23 de abril
Minha opinião sobre a guerra do Iraque
Tem tantos refugiados saindo do Afeganistão que eles deviam mudar o nome do país pra Afeganistavam.
segunda-feira, 10 de março
Indisposição
Engraçado como hoje as pessoas não ficam mais socialmente indispostas. No passado, fulano era convidado pra um sarau e declinava, porque havia acordado com um ligeira indisposição. Diante de um jantar na casa da avó da esposa ou de uma serenata, você poderia dizer que infelizmente não compareceria porque, pobre coitado, tinha sido acometido de uma súbita indisposição naquela tarde, preferindo ficar em casa de repouso. Falava-se em indisposição e isso era suficiente pra te dispensar do compromisso, sem ofender as suscetibilidades do anfitrião e sem provocar maiores perguntas.
E aí o meu ponto. O interessante da indisposição é que ela se situa em algum lugar indeterminado, numa zona cinzenta entre a simples vontade de não ir (tenho coisa melhor pra fazer) e os infortúnios que nos impedem de ir (como uma doença). Diante de um convite impertinente vindo de alguém que você não quer desagradar, a indisposição seria a justificativa perfeita, pois te poupa de dizer na cara dura que você não vai porque, por exemplo, acha o programa chato. Ao declinar por estar indisposto, você evita maiores explicações e reveste a sua ausência de um verniz de mistério, deixando o anfitrião sem saber se você está com um pé na cova ou se simplesmente prefere ver um documentário sobre a história no número um no Discovery Channel, na agradável companhia do seu buldogue.
O que se tem por estes dias, na melhor das hipóteses, é o genérico "xi, não vai dar, não estou me sentindo bem hoje". O problema é que o seu amigo vai se achar obrigado a perguntar o que está acontecendo, se você já procurou um médico e vai dizer que ele conhece um clínico geral ótimo e baratinho, amigo de um primo etc. etc., até pra mostrar algum interesse no seu estado de saúde. E você vai começar a se sentir incomodado, vai acabar perdendo a paciência e respondendo, como eu costumo fazer, que "não é nada muito grave não; é só uma diarréia forte que me pegou de surpresa, mas, tirando o excesso de flatulência, já está tudo sob controle", colocando um fim abrupto na conversa e ensinando o grosseirão que certas verdades são duras (ou moles) demais pra serem ditas.
Enfim. Dizer a verdade é uma das formas mais comuns de ofender alguém e, na minha humilde e correta opinião, a sinceridade é quase sempre uma grosseria imperdoável. Mas antes que os pudicos me puxem a orelha, admito que mentir também não é algo agradável, o que nos deixa como única alternativa a boa e velha dissimulação. A desculpa da indisposição é uma forma elegante de dissimulação. Há desculpas esfarrapadas, mas existem também as desculpas elegantemente trajadas, de fraque, cartola e gravata de seda. O fim da indisposição como justificativa plausível pra ausência em um compromisso social é a maior evidência do ocaso das boas maneiras nesses nossos tempos. Hoje em dia, se bobear, somos obrigados a falsificar um exame médico pra escapar da macarronada de domingo na casa de uma tia. Uma lástima.
quarta-feira, 27 de fevereiro
Eros uma vez...
Por curiosidade resolvi comprar o livro “Triângulo no ponto”, de autoria de S.Exa. o Min. do STF Eros Grau. Pra quem não conhece (ignorante!), o ministro é professor titular da Universidade de São Paulo, foi indicado para a mais alta corte do país pelo Presidente Lula e o “Triângulo” é seu primeiro romance. Vocês sabem que sou um reles barbeiro com uma quedinha pela literatura e que por isso mesmo, como diria o saudoso cel. Ponciano de Azeredo Furtado, não sou homem de intromitências em assuntos de alta questionação, talqualmente a crítica literária. Mas a leitura do “Triângulo” foi tão impactante na minha vida que não consegui segurar o comichão e acabei anotando algumas observações sobre este livro singular, que gostaria de dividir com vocês.
Seguindo um caminho mais fácil, transcrevi as partes do texto e coloquei meus humildes comentários em seguida. Pros incrédulos e demais discípulos de São Tomé, tomei o cuidado de indicar a página do livro, facilitando a vida de quem quiser consultar os originais pra tirar a coisa a limpo. É tudo verdade. Já o título do post é uma sugestão do FDR e uma homenagem ao Millôr, que, apesar de ser apenas bacharel pela Universidade do Méier (nota “C” no Provão), me serviu de inspiração na sua resenha ao “Marimbondos de fogo”, o livro que quando a gente larga não consegue mais pegar.
***
Pra começar, uma coisa que chama atenção é o fato da narrativa ser marcada por uma constante repetição de palavras. No início me pareceu algum tipo de erro de revisão, mas a gente acaba percebendo que a gagueira é um cacoete de estilo, que o autor deve considerar charmoso. Vejam esse trecho, por exemplo, que introduz na trama a personagem Alexandre: “Um rapaz de vinte e dois, vinte e três anos, bem-feito de corpo, másculo como pode ser um rapaz de vinte e poucos anos. Um rapaz que, embora não sendo o rapaz da terapia, gosta mesmo, como ele, é de ser tocado por outro homem”, pág. 70. Entenderam o que eu quero dizer? E esta penetrante reflexão sobre o terrorismo: “O que é o terror, raiz do terrorismo? O movimento ou a reação ao movimento? O terror que aterrorizava Xavier era o terrorismo da reação”, pág. 55. Deixando de lado o paradoxo tostines (é o terror que causa o terrorismo, ou o terrorismo que causa o terror?), o trecho é praticamente um trava-língua. Repita se for capaz: o terrorismo do terror aterrorizava os terroristas.
Mais? Falando de um quadro do Manet, Olympia: “Há aí três elementos: a nudez, a iluminação e nós que as surpreendemos, nudez e iluminação. Há a nudez e a iluminação que está no lugar mesmo em que nós estamos, de modo que é o nosso olhar que, abrindo-se sobre a nudez de Olympia, a ilumina”, pág. 132. Rocambólico. Parece disco quebrado. Mas a minha preferida é essa passagem em que o autor cria um alter-ego pra escrever a segunda parte do romance, uma coisa meio metalinguista-fróidiano-socrática: “Tentei escrever como ele suporia que eu escrevesse se estivesse a escrever esta parte final do Triângulo no ponto”, pág. 114. É mole?
***
Além da gagueira, outro aspecto divertido são os chavões literários, aquelas frases que você já deve ter lido umas duzentas vezes, só no verão passado. Aos exemplos: “Ainda sinto o cheiro do seu corpo”, pág. 14. Convenhamos que é um comentário digno do Sidney Sheldom ou daqueles Sabrina da vida: ainda sinto o cheiro do seu corpo, após uma tórrida noite de amor ao luar, etc.etc. Ou este: “Aconteceu em um mês de maio”, também da pág. 14. Não é implicância não. É brega para diabo. Parece título de novela na Globo: Aconteceu em um mês de maio, com Cauã Reymond, Marcello Anthony e Grazi (ex-BBB); a nova novela das seis. “Eu era jovem”, pág. 18, e “nós éramos jovens”, pág. 99. Essa é universal e só perde pro “era uma vez” (ou, como dizem os americanos, once upon a time). Meu avô começava todas as suas estórias com essa abertura: eu era jovem e ainda nem tinha casado com a sua avó; bons tempos aqueles...
***
Outro ponto alto do livro são as pérolas de filosofia judiciária, um mistura meio indigesta de axiomas político-filosóficos de botequim e expressões jurídicas: “Amor é posse, sempre temporária, frágil, resolúvel”, pág. 26. Modéstia à parte, já havia pensado numa teoria possessória do amor. Amantes entrando com usucapião e esposas/maridos traídos com reintegração de posse etc.etc. Mas a patente é do ministro, que publicou primeiro. “O futuro é indisponível”, pág. 13, e “o futuro daquele instante era indisponível, como todos os futuros. Costa dispôs do futuro, apostou na liberdade”, pág. 89. Confesso que dessa não sei nem o que falar. Convenhamos que “futuro de um instante” não faz muito sentido. E se o futuro era indisponível, então como é que o Costa dispôs dele em troca da liberdade?! E tem mais: para o tal do Costa, esses intelectuais não passam da “síntese acabada da contrafação da ética da qual se fazem arautos” pág. 103. Se alguém te xinga desse jeito na rua você tem que responder: “é a mãe, filho duma égua!” E, finalmente, pra fechar com chave de ouro: “A globalização é como a primavera ou o inverno”, pág. 98. Lindo isso, não?
***
E, claro, tem as passagens apenas ridículas, as minhas prediletas. “A memória dessa tarde é aprazível”, pág. 12. Aprazível pra mim é nome de remédio: enchi a cara ontem, nego; preciso de um aprazível urgentemente. Que tal essa, sobre o talento poético da personagem Xavier: “Os versos saem metálicos, em proporções acabadas, sem se abrirem para a continuidade do poema. Saem versos surrealistas, tipo ‘se o bonde vier cheio/eu me penduro nos teus seios’”, pág. 60. Bem. Esquecendo o non-sense da tal “abertura para a continuidade do poema”, sorte nossa que pelo menos esse bonde não veio de Portugal, que rima com... enfim, que rima com outras partes penduráveis do corpo humano.
Ou essa: “Xavier cunhou frases significativas, tipo ‘o olho, o ovo e o testículo do touro’, a fim de que quem ouvisse essas palavras pudesse completar algum sentido.”, pág. 68. Pra começar, “a fim de que quem” é cacofonia de doer o ouvido. Uma batida de automóvel soa melhor. Fora que, se a frase ‘o olho, o ovo e o testículo do touro’ já é considerada significativa (do que, data venia, ouso discordar), por que alguém iria completar nela algum sentido?
E o que vocês me dizem dessa passagem: “Antes fantasiava com Sílvia, a fantasia, aliás, fora construída para ser vivida por Sílvia, Olivier e outros nela, dentro dela, fazendo de tudo nela. Sílvia pentapenetrada...”, na sugestiva pág. 69. É brincadeira? Fiquei imaginando como seria possível a pentapenetração se as mulheres normais têm apenas dois buracos e uma boca, até que me lembrei das orelhas e das duas narinas. É isso aí, dona Sílvia! Agora é chamar o Dunga e mandar brasa rumo ao hexa!
***
Não é impagável? Juro que não me divertia assim desde a minha primeira leitura do Pigmaleão de Shaw. Eu poderia fazer anotações no livro inteiro, porque cada parágrafo guarda seus encantos e detalhes. Um exemplo é a página 12, onde me deparei com o seguinte trecho, no qual a personagem Rogério lembra da noite em que foi abandonado pela pentapenetrada Sílvia. Coisa poética, de arrancar lágrimas dos olhos:
“O tempo passa com a lembrança recorrente daquela noite e a convicção, que assumi desde o primeiro instante, naquela noite, de que Sílvia não era dialética. Dialética fosse, a minha Sílvia, e compreenderia que a cada negação do nosso amor o nosso amor estaria sendo suprassumido, hegelianamente, cada vez mais nosso amor. Decididamente, Sílvia carecia de paciência histórica. Manteve alguma, durante certo tempo. Mas não era tal, essa paciência, que pudesse ser qualificada como histórica. E assim foi que, uma noite, Sílvia partiu. A paciência que a notabilizara uma tarde, o mar batendo em nossos pés, ela a perdera. Sílvia perdera a consciência histórica.”
Segue o mesmo trecho com meus comentários entre colchetes:
“O tempo passa [o tempo voa, e a poupança Bamerindus...; péssimo esse lugar comum] com a lembrança recorrente daquela noite e a convicção, que assumi desde o primeiro instante, naquela noite [não entendi essa repetição, mas tudo bem], de que Sílvia não era dialética [e isso é lá adjetivo para se descrever a mulher amada?]. Dialética fosse [inversão xeiquespiriana está fora de moda há uns 200 anos], a minha Sílvia [claro que é sua; eu é que não ia pegar essa baranga], e compreenderia que a cada negação do nosso amor o nosso amor [meio concretista essa parte] estaria sendo suprassumido, hegelianamente [sem comentários...], cada vez mais nosso amor [ele realmente acredita que essas repetições têm algum efeito estilístico...]. Decididamente, Sílvia carecia de paciência histórica [a minha paciência histórica também já vai acabando...]. Manteve alguma, durante certo tempo. Mas não era tal, essa paciência, que pudesse ser qualificada como histórica [afinal, é ou não é histórica?]. E assim foi que, uma noite, Sílvia partiu [já vai tarde...]. A paciência que a notabilizara uma tarde, o mar batendo em nossos pés [bonito isso, hein?], ela a perdera. Sílvia perdera a consciência histórica [e nós o fôlego, ministro].”
***
Pois é. Como eu dizia, poderia fazer anotações no texto todo, mas é claro que essa coisa de comentar dá muito trabalho e eu não tenho tanto tempo de sobra assim, como um ministro do STF, pra gastar com essas bobagens. Mas sem abandonar os merecidos encômios, e já na condição de discípulo literário e profundo admirador do grande romancista, me atrevo a escrever uma singela e humilde homenagem ao autor, no estilo inaugural dessa obra fundamental da literatura pátria, como forma de expressar a minha admiração:
“Inicialmente, deve-se esclarecer que meu coração palpita de emoção irrevogável, irretratável e irreversível, equiparável apenas à felicidade experimentada quando degustei uma taça 'superbes' de Chateux Lafite 75, em Cap d'Antibes. Destarte, a supracitada felicidade me atingiu no peito naquela tarde, quando compulsei seu romance pela primeira vez, o sol reincidente esquentando minha face túmida, o vento intempestivo remexendo meus cabelos sedosos, naquela tarde, enquanto as suas poéticas palavras em meu espírito entravam para não mais sair, salvo com ordem liminar de despejo. Ó êxtase, ó musa da literatura, que dá provimento a tantas poesias e romances, como naquela tarde, cabelos ao vento, face túmida. Termos que, pede-se deferimento. Atenciosamente.”
quinta-feira, 3 de agosto
Acabei de voltar do almoço e tive a infelicidade de sentar ao lado de uma mesa cheia de gente feliz. O excesso de felicidade é uma deselegância e a euforia humana uma grosseria imperdoável. Pessoas eufóricas falam alto, esbarram umas nas outras e riem de forma descontrolada das maiores bobagens. É uma espécie de embriaguez do espírito, que, como toda embriaguez, só aproveita a quem também está embriagado. A inteligência exige uma certa sobriedade e essa coisa de ser feliz em demasia funciona como um nudismo do espírito. Uma risada alta, por exemplo, é o mesmo que um bundalelê da personalidade.
Nada contra o nudismo, claro, desde que estejamos diante de um belo corpo. O problema é que a alma da maioria das pessoas é deformada, cheia de cicatrizes e amputações. Há almas carecas, peludas, mancas, tortas, caolhas, excessivamente obesas ou excessivamente raquíticas. As almas, por sinal, assim como os corpos, necessitam de dietas rigorosas e treinamentos intensivos. Conheci um professor de literatura que padecia de uma obesidade mórbida, decorrente do consumo excessivo de gorduras saturadas e literatura latino-americana. Não faltam também almas raquíticas andando por aí, cuja anemia é tão intensa que só o fato de permanecerem de pé já é por si só surpreendente.
Cultivar uma alma atlética e bem disposta, que se mantenha dentro do peso. Alimentá-la de forma balanceada e exercitá-la diariamente. Enfeitá-la com belas gravatas de seda, sapatos polidos, e vesti-la adequadamente para cada ocasião. Eis aí um propósito para uma vida.
quinta-feira, 27 de julho
Ser pobre é uma condição social, mas ser classe média é um estado de espírito.
quinta-feira, 20 de julho
Arte não pode ser engajada e a sua politização é o maior dos crimes lesa-cultura que existe. O único fim da arte é a própria arte. Se ela vem contaminada de ideais não estéticos perde a sua identidade, como uma dessas batatinhas fritas sabor bacon, que não é mais batata frita nem chega a ser bacon. Se eu vou a uma peça de teatro, não me importo com as inclinações políticas do autor e não estou interessado em ouvir sua opinião sobre assuntos cotidianos. Entro ali para ter um contato com uma beleza irresponsável, intangível e abstrata. Não me fale em realidade dentro do teatro. Eu conheço a realidade. Todo dia de manhã eu acordo na realidade, tomo café na realidade, trabalho, janto e durmo na realidade. Arte realista é uma contradição em termos e a única coisa que espero de um artista é que ele me iluda, que ele minta para mim descaradamente.
Encenar uma peça de teatro sobre a realidade é mais ou menos a mesma coisa que organizar um jantar de gala, convidar cinqüenta pessoas e servir arroz com feijão. A platéia come arroz com feijão todo dia e a promessa de um grande banquete cria apetites para pratos imaginários, como uma lagosta taitiana regada a molhos filosóficos espessos, acompanhada de pequenas frases de humor doce e levemente ácido. Arroz com feijão é nutritivo, não nego, saudável, é verdade, e exatamente por isso se come em casa de segunda a sexta, e não em ocasiões especiais. Quando chego ao teatro e me deparo com um texto em que o marido de classe média reclama aos berros da perda de um emprego, aí sim me sinto enganado, exatamente porque ninguém ali teve o cuidado de se preparar para mentir para mim, apresentando um mundo elegante, sofisticado e engraçado. Lá estou eu, acompanhado de minha bela esposa, de terno, gravata e talheres de prata na mão, degustando um impensável mexidinho com farinha.
terça-feira, 11 de julho
Em bosta seca não se cutuca
O ceticismo é a mãe do conservadorismo. Pessoas com afetações revolucionárias são sempre motivadas por uma crença cega em sua própria capacidade de compreender e mudar o mundo. O cético duvida de suas habilidades e não acredita na capacidade humana de compreender o mundo e fazer o bem de maneira voluntária. Daí porque todo cético demonstra uma certa hesitação em aderir a programas reformadores e filosofias revolucionárias, por mais coerentes e verdadeiras que elas possam parecer em um primeiro momento. O conservadorismo é, antes de tudo, uma demonstração de senso de proporção perante as coisas como elas são, enquanto a postura revolucionária nada mais é do que um egocentrismo histriônico.
Afinal, diria o cético: se o mundo é uma merda, melhor não cutucá-lo.
sexta-feira, 23 de junho
Loucos somos nós
Tenho pesadelos com alguma freqüência e foi em Siracusa que tive o pior deles. Sonhei que estava em São Paulo, em meu escritório, na frente do computador, como neste exato momento. Ali, naquela hora, para mim era o bastante. Segundo minha mulher, acordei suado, agarrado ao travesseiro e gritando desesperado por socorro. Por isso insisto de novo. Só os loucos toleram a realidade. Para quem vive no Brasil, nada mais sensato do que a alienação.
sexta-feira, 16 de junho
Mandinga involuntária
Entrei e saí da Europa fazendo conexão em Madri. Na ida, graças ao atraso da bagagem, o que seriam duas horas acabaram virando cinco, tempo suficiente para tentar ir atrás de um sanduíche de presunto cru ibérico e investigar a adega de uma lojinha na sala de embarque. Já no aeroporto, antes mesmo de sobrevoar a Córsega até Roma, pude constatar que a grandeza de um país se mede por dois fatores: riqueza e tradições.
O maior sinal de riqueza da Espanha é a civilidade do aeroporto de Madri. Também acho que falar em civilidade de um aeroporto é o mesmo que falar na elegância de um matadouro ou na classe de um lava rápido. Mas a graça do aeroporto de Madri é que ele faz de tudo para não parecer um aeroporto. Não há balcão para olhar aviões, tipo de lugar que pressupõe que todos que estão ali nasceram em Birigui e nunca andaram de elevador. Quem olha muito tempo para um avião parado deve sofrer de algum grau de autismo, imagino eu. Outra coisa que chama atenção é o fim daqueles anúncios (atenção senhores passageiros etc. etc.) em alto falante. Todos os corredores têm uma TV de plasma com a programação dos vôos e um aviso de que não há chamada oral para os analfabetos, que, presumo, devem ter sido abolidos do país.
Reina um certo silêncio no aeroporto de Madri, uma calma respeitosa bem adequada aos que, como eu, se sentem face-a-face com a morte antes de embarcar num avião.
Quanto às tradições, entrar numa loja de produtos típicos e encontrar uma bandeja de jamón ibérico de bellota dá uma inveja danada. O jamón ibérico é feito de uma raça de porcos semi-selvagens que tem a pelagem e as unhas dos pés pretas (por isso o nome 'pata negra') e que se alimenta exclusivamente de bellotas, uma espécie de castanha que dá na Estremadura. O teste para saber se um presunto cru é bom é bastante simples. Basta ficar mastigando a fatia sem pressa por alguns minutos. O bom presunto tem pouco sal e vai se dissolvendo até desaparecer. O mau é salgado pra diabo e se transforma numa espécie de chiclete de sebo sem gosto definível, que deve ser ou engolido (para seu desprazer) ou cuspido de volta no prato (para o desprazer da sua acompanhante). Façam um teste com o da Sadia e vocês vão entender do que eu estou falando.
Visitar uma loja de produtos espanhóis e tomar uma taça de Marqués de Murrieta, acompanhada de algumas fatias de jamón ibérico de bellota, foi um contraste intolerável para quem havia passado a manhã anterior no saguão de Cumbica, admirando um impensável tucano esculpido em cristal de rocha. O tucano, talhado em pedra cor-de-rosa, estava ao lado de uma camisa da seleção brasileira e vinha rodeado por seis garrafas de cachaça, numa espécie de mandinga involuntária em favor do hexa na Alemanha. Mesmo sem querer, talvez o arranjo representasse a única coisa realmente típica do brasileiro, a mandinga, uma mistura de superstição ingênua com misticismo oportunista, a analogia perfeita do caráter de um povo condenado à irracionalidade e ao atraso.
Reclinado numa poltrona couro e vendo o sol seco atravessar a meia taça de vinho em minha mão, a única coisa que pude fazer naquele momento foi lamentar profundamente por quem somos, enquanto esperava a fatia do presunto terminar de se dissolver em minha boca.