julho 23, 2007

O mundo não é chato. E Caetano?

Talvez chegue o dia em que o “subintelectual de miolo mole” Caetano Veloso – para usar uma expressão de José Guilherme Merquior – seja avaliado pelo que realmente é, e não pelo que parece ser. Num país em que Cazuza é tido como “poeta” – e, assim, é colocado na altura de W. B. Yeats, W. H. Auden, João Cabral de Melo Neto e Fernando Pessoa –, não impressiona que intelectuais, à moda José Miguel Wisnik e Marilena Chauí, tenham o prestígio de artista e que artistas, a exemplo de Chico Buarque e do próprio Caetano, sejam vistos como intelectuais. Uma coisa os une nessa oposição combinada: as idéias fora do lugar.

O próprio Caetano admite, o que é comovente, “nunca antes ter havido no Brasil uma figura popular com tanta pinta de intelectual quanto” ele. A modesta confissão está no texto “Discretamente aqui”, de 1972, incluído na coletânea O Mundo Não É Chato, que li para elaborar um texto para a revista Primeira Leitura e que acabou não vingando por lá. “Como Glauber (mais ou menos involuntariamente), tornei-me uma caricatura de líder intelectual de uma geração. (…) Na sua miséria, a intelectualidade brasileira viu em mim um porta-estandarte, um salvador, um bode expiatório”.

Não se engane com esse aparente dar de ombros. Caetano aproveitou o cavalo passar selado e montou. Foi essa miséria intelectual brasileira que o aceitou como um compositor popular que também “pensava”, algo ainda inconcebível no país. E a classe média inculta, ávida por ícones naqueles anos 60 e 70, o transformou num deus pop. Que muitas escolas e universidades passem para os alunos letras do compositor junto com a poesia de Camões, Olavo Bilac e Drummond, como se fossem equivalentes, é um sintoma do nivelamento por baixo, da confusão que se faz entre cultura e entretenimento, já identificada pelo poeta Bruno Tolentino na antológica entrevista à Veja.

O Mundo Não É Chato, feito, afinal, para ler, não para ouvir, demonstra como um jovem ambicioso do interior da Bahia, nascido em Santo Amaro da Purificação, talhado para ser cantor e compositor, meteu-se na aventura do pensamento e, bem…, só foi piorando com o tempo. O sucesso como artista foi inversamente proporcional à sua desenvoltura como pensador.

Se os textos sobre cinema escritos para jornais baianos na década de 1960 trazem a preocupação de construir uma argumentação lógica, permeada por escolhas estéticas fundamentadas, os mais recentes, da safra pós-década de 1990, sofrem de anorexia verbal. O bom começo, em 1962, num texto para o Diário de Notícias, de Salvador: “[Fellini] Traz para o filme [A Doce Vida] as experiências antes feitas em literatura, utilizando, para isso, a teoria einsensteiniana da montagem como recriação do monólogo interior” (“Os grandes do momento”). O começo da tragédia, para o Pasquim, em 1970: “O disco [dos Novos Baianos], como de hábito, não é bom. Mas é ótimo, em compensação. Porque a gente vê que a turma é legal” (“Londres”). O desastre, em 2004, no Jornal do Brasil: “Tudo concorre [no filme Cazuza] para criar uma empatia entre a obra e as platéias que enobrece a face popular do cinema e populariza alguma coisa misteriosa da experiência poética autêntica”. Ahn?

Caetano, que sonhou ser cineasta e chegou a dirigir o filme O Cinema Falado, impressiona o populacho intelectual e os amigos artistas porque o nível é muito baixo. “Acho que nós, brasileiros, nos contentamos com muito pouco” (“Diferentemente os americanos do norte”). Isso explica, em síntese, o sucesso de certas vacas sagradas no Brasil.

A metáfora pecuária aplica-se, ainda, ao equívoco do compositor quando tenta explicar o caráter do brasileiro a partir de um texto de Jorge Luis Borges sobre os argentinos. “O que nos parece sinistro, isso sim, é o fato de vermos a nossa incapacidade para a cidadania guindada à condição de contrapartida de uma bela vocação individualista e de aprendermos que nosso desrespeito aos dinheiros públicos nasce de uma quase nobre rejeição dessa ‘inconcebível abstração’ que é o Estado”.

No Brasil, o Estado não é uma abstração, como quer Caetano. É, sim, uma vaca profana (título de uma música sua), cujas tetas se arrastam flácidas no chão por excesso de uso. Boa parte dos brasileiros sonha com um emprego público e churrascos nos fins de semana financiados pela viúva. Artistas e intelectuais de esquerda sentem frêmitos quando ouvem a expressão mágica “apoio estatal” – de que depende boa parte da “produção cultural” brasileira.

O Estado ainda é o grande detentor do PIB brasileiro. É lícito inferir que o compositor-enquanto-pensador não sabe o que diz. Ele também confunde o conceito político de “indivíduo” e o contrapõe ao de “cidadão”, como se fossem excludentes. Indivíduo, para Caetano, não é o homem que ama e preserva os seus (e dos outros) direitos e liberdades, mas o egoísta incapaz de respeitar a cidadania e o dinheiro público — que, aliás, é dinheiro privado expropriado pelo Grande Satã, o Estado.

Caetano parece fazer tudo na medida para que suas falhas sejam explicitadas. De certo modo, cumpro uma vontade sua. É folclórica a sua relação com a imprensa. O livro traz algumas de suas reações. Como a de chamar, em 1996, jornalistas e colaboradores do Jornal do Brasil de “bandidos das redações”, que fingiam ser “igualitaristas”, depois de o jornal, assim como outros do Rio, questionar os R$ 540 mil pagos pelo município a seis artistas (ele incluído) por conta do show do Réveillon de 1995. Paulinho da Viola, que recebeu o menor cachê da turma, só soube disso pela imprensa e nada pôde fazer a não ser enfiar o sobrenome na sacola e engolir a história. A deblateração de Caetano contra os jornais é um caso clássico de contra-senso, embora aparente. Afinal, tudo está sempre no preço. Uma de suas grandes habilidades é seduzir jornalistas e usar a mídia.

Há quatro pontos interessantes no livro, noves fora a representação do ambiente artístico durante sua carreira: o pau na esquerda festiva da época; os elogios a Nelson Rodrigues, figura odiada pelos comunistas; a admissão de que o tropicalismo foi superestimado, e a simpatia pelos Estados Unidos. Se, hoje, elogiar a nação que nos deu William Faulkner provoca esgares de nojo e cólica, imaginem o que isso não era na década de 1970 — e já sem Geraldo Vandré para caminhar, cantar e seguir a canção…

Gozado, boa parte dos textos reunidos em O Mundo Não É Chato é melhor do que o que lemos diariamente nos cadernos culturais dos jornalões. Isso é mau, latiria meu querido buldogue, o Barão de Münchausen. Significa que o jornalismo brasileiro piorou muito desde que Caetano, em luta constante e bravia pela unanimidade, começou a escrever crítica de cinema em sua cidade natal. No Pasquim dos anos 1960-70, para ficarmos num período, ele tinha como colegas de jornal Ivan Lessa, Paulo Francis, Millôr Fernandes, Sérgio Augusto… O que temos hoje?

O mundo não é chato. Nem Caetano é o que parece ser.

(Publicado também em Bruno Garschagen).

Posted by Garschagen at 10:40 PM

junho 28, 2007

A emoção é uma das bênçãos de ser humano.

Posted by Garschagen at 2:31 AM

Tolentino também vive aqui

Ontem, por conta da morte do poeta maior Bruno Tolentino, publiquei muita coisa lá no novo blog. Quem gosta de poesia deve ir lá. Não vou reproduzir os textos aqui porque não é o caso, passou. Mas escreverei mais sobre Tolentino, e, aí sim, estarão aqui. Vou-me.

Posted by Garschagen at 1:53 AM

As negligências do senhor Garschagen

Com o novo blog, tenho negligenciado muito este espaço, que não é menos importante não. Muitos me perguntaram, depois que inaugurei o novo blog, se eu deixei o Wunderblogs. Of course not, my dears. Gosto de estar aqui, estou cercado de amigos que admiro. Por isso, passarei a inserir aqui os posts que coloco . E ainda colocarei somente aqui aqueles meus textículos mezzo ficcionais. Por que isso? A gente não deixa quem a gente só porque mudou de casa, né? Tá explicado? Então, toquemos a boiada.

Posted by Garschagen at 1:37 AM

junho 16, 2007

Provocações: Entrevista com Diogo Mainardi

Está lá, no meu novo blog, assim como a celebração do Dia de Bloom. Não deixa de ir não, tá?

Ele já se definiu como Bouvard et Pécuchet, personagens de Flaubert. Sua literatura conjuga o melhor da prosa satírica, burlesca e picaresca forjada na Inglaterra, França, Itália e Espanha. Daqui, sorveu, especialmente, Lima Barreto e Machado de Assis. D elá, Rabelais, Diderot, Voltaire, Swift, Milton, Cervantes, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Evelyn Waugh, P.G Wodehouse. Tem mais? Tem. Mas tudo o que é demais excede, já dizia minha bisavó.

Sua prosa futuca as chagas e os ridículos do homem médio, do homem baixo, do homem ocidental, das três mulheres altas, do homem imperfeito que se pretende perfeito pelas boas ações, que nunca são. São trágicas. São cômicas. São Paulo. Onde nasceu. Não gosta de lá. Critica. Com violência. Com graça. Nem todos vêem a graça. Muitos vêem o Espírito Santo. A equação não fecha. Aqui o candomblé festeja os orixás dentro da Igreja Católica. Vai entender…

Diogo Mainardi: Uma novela (Malthus), três romances (Arquipélago , Polígono das Secas e Contra o Brasil), uma coletânea de artigos (A tapas e pontapés). Embora seus quatro livros mostrem um escritor notável e único no Brasil, não foi o romancista a ganhar fama. Foi o jornalista − primeiro, violento e azedo; depois, conjugando humor e virulência − a se tornar nacionalmente conhecido.

Você, leitor amigo, sabe, há alguns anos Diogo é o colunista mais comentado do país, para o bem e para o mal. Escreve para a revista de maior prestígio e maior circulação nacional, a Veja. No início, sobre temas culturais. A eleição de Lula converteu-o em colunista político. Foi um dos primeiros a destapar o derrière do governo petista. Pediu, por várias vezes, pela revista, o impeachment de Lula. Continua desnudando o mito Lula, avançou a trincheira na direção dos demais homens do presidente, mas admite o enfado do samba de uma nota só.

Suas colunas reverberam, retumbam. Numa lista das dez com maior repercussão de leitores da história da Veja, sete são dele. Andando com Diogo pelas ruas de Ipanema, ou conversando dentro de um café no mesmo bairro aqui do Rio, as pessoas se aproximam, cumprimentam, elogiam. Quem não gosta e reconhece finge indiferença.

Com a matéria docorrespondente do New York Times, Larry Rohter, feita em 2004, em que dizia haver preocupação nacional com o, digamos, hábito de beber do presidente Lula, Diogo ganhou tribuna mundial. Foi citado pela coluna na qual pedia ao presidente que parasse de beber em público.

Diogo, também comentarista do programa Manhattan Conection, do GNT, gosta do Rio. Mora aqui desde 2003, de onde escrevo, racho os calcanhares e o fígado. Cuida dos dois filhos, vive a esposa. Volta e meia dá um pau no Rio. Errado? Não. O Rio está falido. Sujo. Uma grande latrina de fezes e urina canina. Sobrevive pela paisagem e pela Globo. Ai de ti, Copacabana, já lamentara nosso cronista maior Rubem Braga. Ai de ti, Rio de Janeiro, resmungo eu.

Nos anos de 1980, se mandou para Londres. Estudos na London School of Economics. Procurou o escritor e jornalista brasileiro Ivan Lessa, radicado no país do doutor Samuel Johnson desde a década de 1970. Os estudos formais foram para o brejo. Ivan, que escreve para o site da BBC, concedeu-lhe a formação intelectual e humanista. No papo, na conversa. Livros por semana. Entregas na seguinte. E assim foi.

Diogo é sempre tachado como cópia mal feita de Paulo Francis. Mas ele, no tom e no texto, é da linha de Ivan Lessa. Corre e vai ver lá. Voltou? Prossigamos.

Cheguei a Diogo por sua obra literária. Só depois, às colunas. Fiz o caminho inverso do que o normalmente acontece. Brasileiro, às vezes, lê jornal e revista. Livro, nem pensar. Esta entrevista foi feita em dezembro do ano passado para a revista portuguesa Atlântico. A maior parte do que publico aqui no blog, incluindo esta introdução, não seguiu para Portugal, ficou aqui, guardado, e agora divido com vocês. Algumas perguntas, você vai notar, foi feita na ressaca da eleição do Nine Fingers, o terrível vilão que ganhou o segundo mandato nesta Terras de Vera Cruz. Mantive aqui porque as respostas são boas e não perderam validade. Mantive ainda as questões sobre Portugal. Você vai gostar.

A concessão da entrevista, foi por amizade, em forma de esmola. Senti-me Oliver Twist em Ipanema, calçao puído, nariz sujo. É assim aqui. Sem barquinho e violão, nada de chorar na varanda. É preciso garantir o uísque das crianças, alguém já disse isso, o autor, não lembro.

Era uma tarde de céu nublado. Rumo à Estação Ipanema. Apartamento dele em frente ao mar. A praia, dia cinza, parecia um instantâneo de Cartier-Bresson. Lá fui, cheguei, vi e ouvi. A conversa é essa. É boa. Você, leitor amigo, não pode não gostar.

BRASIL

Você foi um dos três jornalistas brasileiros, além de Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho, que desde a eleição de 2002 fez oposição aos modus operandi do PT e do presidente Lula. É destino, sina ou maldição?
Eu nunca fiz uma crítica ideológica ao governo. O governo não é ideológico; o Lula, sobretudo, não é ideológico. Eu sempre o tratei como o laranja de uma gangue, como o testa-de-ferro de uma bandalha. A única novidade desse governo é que ele criou um escudo muito forte para acobertar a roubalheira, que é a imagem do próprio Lula. Ergueu-se uma cortina atrás da qual o roubo corre solto. Eu sempre pensei em abrir essa cortina, em minar o testa-de-ferro, em revelar o esquema laranja escondido atrás do Lula. O meu trabalho, desde o começo, foi desmontar o mito Lula. Eu só via nele uma fachada para encobrir interesses muito menores.

Se o Lula é o testa de ferro, quem é que manda no governo?
Lula se insere na velha tradição do caudilhismo. Um grupo de pessoas que veio da camada mais baixa da sociedade toma o poder e só pensa em se dar bem. É um grupo bastante grande e que está disposto a tudo. Aconteceu no Brasil e na América Latina muitas outras vezes no passado, e está acontecendo de novo agora. Com o discurso de combater a oligarquia, se forma uma cleptocracia.

Esse grupo que está por trás do Lula é ideológico?
Eles usam a ideologia quando lhes convêm; quando serve para arrebanhar inocentes úteis; quando serve para criar uma cortina de fumaça que os proteja ou quando a ideologia ensina um método de ocupação do poder. Mas o fim é apenas mercantil. Eles estão interessados em dinheiro, em poder, em se perpetuar no poder.

Alkmin não ganhou porque era uma péssima alternativa ou errou na campanha?
Alckmin era um péssimo candidato, o PSDB é um péssimo partido, e a gente não tem uma oposição de verdade no Brasil. A oposição fez um papelão durante um ano e meio nas investigações da roubalheira petista. Como a gente sempre conviveu com roubalheira, eu tentei lembrar que a roubalheira petista era pior do que as outras porque tinha um intuito golpista, como no caso do mensalão pago a parlamentares para apoiar o governo. Isso pode ter ocorrido no passado para comprar um ou dois projectos de lei, mas não para uma legislatura inteira. Uma compra desse nível nunca houve na história brasileira. O dossiê é outro caso de subversão da alternância, da democracia, financiada com dinheiro sujo. Toda a roubalheira petista tem um fundamento antidemocrático. Isso foi o que sempre me preocupou.

Como você imagina o Brasil com mais quatro anos de governo Lula?
Há um abatimento muito grande. A economia vai continuar em marcha lenta. Na parte dos direitos democráticos, vejo uma ameaça permanente, inclusive contra a liberdade de imprensa. Mas Lula só vai se “chavizar”, só vai transformar o governo em algo mais bolivariano, se a economia despencar ou se a imagem pessoal dele for para o brejo. Sempre achei que o maior perigo do Lula era que ele estaria disposto a fazer qualquer coisa para não perder as benesses do poder. Ele seria capaz até de fechar o Parlamento ou de confiscar a propriedade dos meios de comunicação. Se ele não tiver que fazer nada disso, vai continuar o governante paternalista, assistencialista, que a gente viu até hoje. Mas se a situação económica internacional piorar, temo que ele possa cometer mais algum despropósito antidemocrático.

AMÉRICA DO SUL

Quais são os pontos de identificação que você enxerga entre Lula, Chávez e Morales?
Eles são parte de uma mesma coisa, fruto do mesmo germe. A definição de caudilhismo se aplica a todos eles. Eles são uma expressão do passado e imaginam um tipo de sociedade atrasada. A afirmação desse tipo de liderança vai levar a mais subdesenvolvimento. No passado, os caudilhos foram sucedidos por ditaduras militares. A gente espera que isso não aconteça mais uma vez.

Também não há componente ideológico em Chávez e Morales?
Também não. Chávez tentou dar um golpe, fracassou, foi eleito, deu um golpe branco depois de ser eleito, tomou conta dos meios de comunicação. Eles todos são apenas uns oportunistas que se aproveitam desse discurso de combater as oligarquias.

Você acha que essa malta tem peso para ditar os rumos políticos da América Latina?
Claro que sim. Ditar o rumo da tragédia é fácil. Você não precisa ser um grande estadista para levar um país à ruína. Eles estão sendo acompanhados rapidamente por um monte de gente na Nicarágua, no Equador. O México se livrou por pouquíssimo. Não são mais fenômenos isolados. Eles são a maioria na região.

PORTUGAL

Governante português, sempre que vem ao Brasil, leva consigo uma grande embaixada, mas a idéia que os portugueses têm é que os brasileiros não dão a mesma atenção às relações com Portugal. Qual sua opinião sobre a relação do Brasil com Portugal?
Aqui, o cargo diplomático é um favor político, uma concessão política, e Portugal é o destino dos piores políticos, dos mais ignorantes - os monoglotas. Eles são mandados para Portugal porque é o único país onde se fazem compreender. É assim que funciona: o presidente pega um idiota malandro ligado ao governo e manda para Portugal como prêmio.

Isso significa que o governo não dá a menor pelota para país de Eça?
Não dá a menor pelota para lugar nenhum. A carreira diplomática no Brasil é politizada. O Brasil está cheio de bons diplomatas, mas que não fazem carreira. Quem é mandado para as principais embaixadas, como Portugal, em geral, é político de terceira categoria.

Ainda persiste entre os brasileiros o estereótipo de Portugal como o lugar com mulher com bigode?
Brasileiro não tem o menor interesse pelo que acontece fora do Brasil. Na verdade, não se interessa nem pelo que acontece nos Estados Unidos. Portugal não é notícia no Brasil porque é um país que se acertou. Bem ou mal, Portugal se transformou num país, algo que a gente nunca conseguiu fazer.

No caso dos Estados Unidos, compreende-se que o americano médio não dê a menor importância para o resto do mundo por viverem numa potência mundial. No caso do Brasil, como se explica esse alheamento?
O mundo é complexo, precisa lembrar o nome de muita gente, o nome da capital, da moeda… Quando o assunto começa a ficar muito complicado, a gente perde o interesse, olha para o lado, assovia. Brasileiro não é capaz de tanta concentração.

O que acha da frase de Eça de Queiroz de que o brasileiro era o português dilatado pelo calor -livre de preconceitos, aberto e livre?
Eça tinha opiniões muito pertinentes sobre o Brasil. Ele entendeu muito bem o país. Tudo o que ele dizia de mal a nosso respeito é verdadeiro. O Eça é um grande exemplo de intelectual antinacionalista. Ele falava mal não só do Brasil, mas também de Portugal, de maneira muito ácida, muito bem humorada. A única atitude decente que um intelectual pode tomar é odiar a própria pátria. Mas, ao contrário do que disse o Eça, o brasileiro não é o português dilatado pelo calor; é o português murcho, desidratado pelo calor.

Há um chavão aqui no Brasil, e que já chegou a Portugal, de que se tivéssemos sido colonizados pelos britânicos e não pelos portugueses, Brasil seria hoje um país muito mais desenvolvido. Num exercício de achismo, você consegue conceber como seria nossa situação hoje?
Não sei se o Brasil seria melhor, mas também não seria pior, porque pior do que isso não dá. Possivelmente o Brasil seria melhor até mesmo se tivesse sido colonizado por Uganda.

O que herdamos de pior de Portugal?
A gente estava falando de corporativismo, de covardia intelectual, de bacharelismo: esse excesso de cerimônia no embate de idéias é uma herança de Portugal. Algumas polêmicas histéricas aconteceram lá como aqui, mas o enfrentamento intelectual é, normalmente, muito domesticado, muito comportado.

MUNDO

Como avalia a ação dos americanos no Iraque?
Houve uma sucessão de erros. Se há uma desculpa para os americanos é que erraram muito também no Afeganistão, onde fizeram uma guerra com apoio internacional, da ONU e de um monte de países desenvolvidos, e a situação também não está boa. O que há de errado é a idéia de que uma guerra ou uma ocupação pode ser resolvida em dois, três, quatro ou cinco anos, e que haja uma geração espontânea de civilidade. Isso não existe. E foi uma idéia mal vendida.

Você acha possível essa idéia dos americanos de implantar em países orientais uma democracia nos moldes ocidentais?
É possível implantar um sistema mais tolerante do que havia. No caso do Afeganistão e do Iraque, é muito melhor tentar implantar um governo mais aberto do que permitir que se mantenham ditaduras. No Iraque, hoje, existe uma espécie de imprensa livre, a tolerância a partidos políticos, a liberdade religiosa, coisas que não existiam e que com o tempo tendem a se enraizar. O Brasil, por exemplo, está numa transição democrática há mais de 20 anos e as instituições, às vezes, cambaleiam. Não é que seja uma coisa simples de se programar e de se implantar. O processo é lento mesmo.

É curioso que a imagem que nos é passada pela imprensa é que nada no Iraque melhorou, a pior imagem possível…
É, é. Porque, obviamente, há uma urgência na questão de segurança. É como no Brasil, há uma urgência na área de segurança pública. No caso do Iraque, a segurança é o ponto número um e tem de ser resolvido. Falar em liberdade quando não se pode sair na rua sem o risco de ser explodido por um carro-bomba é até piada. Mas os carros-bomba vão deixar de explodir quando eles conseguirem organizar um estado representativo, não só eleitoralmente, porque isso eles já têm, mas também economicamente.

Você acha que o prolongamento da guerra e a idéia de que os Estados Unidos falharam seriam capazes de dar aos terroristas a impressão de que os americanos não têm força para derrotá-los?
Os terroristas se sentiriam mais fortes se, depois de 2001, os Estados Unidos não tivessem feito nada. Ali eles teriam ganho a batalha. Se depois de tudo o que fizeram não houvesse uma resposta americana, aí sim eles se sentiriam vitoriosos. Até mesmo se os Estados Unidos se limitassem a uma retaliação no Afeganistão. Acho que o Iraque virou um campo de enfrentamento entre os Estados Unidos − em teoria, o Ocidente deveria estar do lado dos americanos e não está − e o terrorismo islâmico.

George W. Bush é a besta que a maioria acha?
Ele é um trapalhão. Um trapalhão que, nos momentos importantes, tomou as decisões certas, mas foi péssimo na hora de executá-las.

A imigração descontrolada de muçulmanos para os Estados Unidos e Europa se revelou um tremendo tiro no pé do Ocidente. A partir disso se estabeleceu uma discussão sobre uma suposta guerra entre Oriente e Ocidente. Isso está certo?
Não existe guerra. Não se pode falar em guerra. O que há é o terrorismo, que é um fenômeno para o qual a gente não encontrou uma resposta ainda. Transformar o Ocidente num estado policial é uma hipótese inviável. Agora, é óbvio que a gente tem que reprimir o terrorismo. A repressão tem que ir até o ponto em que não esmague o estado de liberdades civis. E esse é o ponto que a gente não conhece até agora.

China, Cuba, Coréia do Norte, até quando vão durar esses regimes socialistas ditatoriais?
Até a morte desses tiranos. Esses regimes se sustentam pela figura dos tiranos. Depois que eles morrerem, é muito provável que os regimes desmoronem entropicamente. A gente tem que torcer para que essa gente morra logo. Se pudéssemos acelerar a morte deles, seria ótimo.

Você viu o filme feito pelo ex-vice-presidente americano Al Gore? Assim, você acha que o ambientalismo se transformou numa espécie de causa messiânica de gente da esquerda ou de gente séria com boas intenções?
Não, não vi o filme. Não vou ao cinema há uns 10 anos. Ambientalismo é uma questão que tem que ser resolvida pelo mercado, pelas fábricas de automóveis e pelas empresas de energia. Acredito no mercado, acredito em competição. Acho que quando a gente tiver uma necessidade econômica de encontrar uma alternativa aos combustíveis fósseis, poluentes, a gente vai ter mais chances de encontrar.

CULTURA

Você explicou porque começou a escrever sobre política. A pergunta é: você pretende voltar a escrever sobre cultura?
Serei obrigado. Eu não tenho muito interesse pelo que está acontecendo no mundo da cultura. Não há nada de muito excitante que atraia minha atenção, mas por pura falta de assunto vou acabar caindo em cultura de novo. Vai ser só por desespero, porque, se fosse por escolha própria, eu não voltaria. Entusiasmo pelo tema eu não tenho. E não tenho já há algum tempo.

Quais escritores brasileiros você recomendaria leitura?
Os de sempre: Machado de Assis, Lima Barreto. Quem mais? Deve haver o terceiro. Procurando um pouco até poderíamos encontrar.

E os vivos, quais valem a pena?
Compartilho o entusiasmo do João Pereira Coutinho pelo Millôr Fernandes. Ele tem um texto rápido, direto. Os bons escritores brasileiros são os mais econômicos: Millôr, Dalton Trevisan, Ivan Lessa - aqueles que conseguem enxugar nossa língua.

Quais seus escritores portugueses preferidos?
Li toda a obra do Eça, li toda a obra do Camilo Castelo Branco. Gostei muitíssimo das crônicas do João Pereira Coutinho. Ele é muito bom. Fico contente que o Brasil tenha comprado o passe dele.

Hoje é mais fácil ou mais difícil ser Diogo Mainardi?
Eu sempre tive uma visão bastante crítica a meu respeito, então nunca dei muita bola para minha imagem. Sempre me achei pior do que os outros achavam. Sei que o que eu faço é um trabalho, não é uma cruzada. Eu não tenho segundas intenções, não tenho motivação política, interesse pessoal. Faço porque é o meu trabalho. É muito fácil ser Diogo Mainardi porque acabo de trabalhar, desligo computador e sou esse aborrecidíssimo pai de família, um burguesinho comportadinho, certinho, meio barrigudinho que leva o filho para a escola, traz o filho da escola. Então é muito fácil ser Diogo Mainardi. Não recomendo a ninguém, aliás.

Posted by Garschagen at 2:02 PM

junho 11, 2007

Novo blog, zero bala

Caro leitor amigo, meu novo blog está no ar.
Este aqui continua existindo, ok? Mas me visite lá, até sirvo uísque, olha só. E avise à mamãe, à titia, aos parentes de Piracicaba. Fui.

Posted by Garschagen at 3:11 PM

junho 1, 2007

Entre uma nuvem e outra carregada de desolação, consegui achar meu guarda-chuva, e assim me proteger.

O sorriso voltou, gozado, numa manhã de sol, embora me encham de felicidade os dias nublados. A angústia levantou-se da poltrona e deixou a serenidade sentar. As duas conversaram, beberam uísque e ouviram jazz. Combinaram um equilíbrio necessário para a vida seguir seu rumo.

A maldição move, a bênção relaxa, já disse Blake, e eu repito como se a frase fosse minha - ou feita para mim.

Posted by Garschagen at 4:32 PM

maio 26, 2007

O choro é a alma e o corpo dançando tango

Você já sentiu uma vontade desoladora de chorar? Aquele incômodo que irrompe desatinadamente pelo corpo, trava os músculos, abrevia a respiração, particiona o fluxo sangüineo e desagua em lágrimas sem rédeas. Só a tristeza e a felicidade extrema são capazes de desequilibrar o corpo, ou melhor, manifestar fisicamente o turbilhão emocional. Nas poucas vezes em que alguém me confessou um choro, confissão incômoda e quase silenciosa, como se fosse a própria confissão de um crime, eu passei a admirá-la de forma muito mais intensa e irresponsável. Admitir uma vilania ou um homicídio é muito mais fácil e intolerável do que a confissão, mesmo que privada, de um choro compulsivo.

Posted by Garschagen at 2:14 AM